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30 de mar de 2017

PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1: detalhes e imagens

A Editora Abril está lançando agora o primeiro volume de PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA

A edição de luxo, em capa dura e miolo off-white (papel igual ao da coleção de Barks), reúne as 8 primeiras HQs da série. A apresentação já adianta que serão 5 volumes, com todas as 38 obras de 44 páginas produzidas para a série, apontada por muitos — leitores, sobretudo — como das mais inventivas e bem humoradas do gênero. 

Veja aqui imagens das HQs e fotos deste volume inicial. Os demais devem ser lançados até o ano que vem.







PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1
Publicação eventual em 5 volumes, formato 16,1 x 23,7 cm, 360+4 páginas, lombada quadrada, capa dura com reserva de verniz e hot-stamping, miolo off-white cor, R$ 69,90, distribuição em bancas e livrarias. Lançamento dia 30/mar.

Veja aqui o Guia Planeta Gibi com todos os detalhes, informações e curiosidades da série, suas publicações no Brasil e de cada um dos episódios.




    
Leonardo da Vinci
Goofy da Vinci, 1976
• Roteiro de Cal Howard, desenhos de Hector Adolfo de Urtiága & Larry Mayer
• Arte-final de Rubén Torreiro em todos os episódios
• Publicações no Brasil: 
     ALMANAQUE DISNEY #83 (abr/1978)
     PATETA FAZ HISTÓRIA COMO #3 (dez/1981)
     PATETA FAZ HISTÓRIA INTERPRETANDO #1 (jun/1985)
     PATETA FAZ HISTÓRIA #1 (12/ago/2011)
     PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (mar/2017)

Por Marcelo Alencar. Na paródia biográfica de Leonardo da Vinci, assim como em todas as narrativas correlatas, as chamadas licenças poéticas são sobrepostas a dados factuais, resultando numa mistura cômica de fantasia e realidade. Um exemplo de dado factual é a passagem na qual Leonardo escreve de trás para a frente. Ele de fato fazia isso, supostamente por ser disléxico. Já uma amostra de licença poética é a estátua do roqueiro com sua guitarra elétrica numa praça da Florença renascentista.

Os roteiros da série são inovadores porque neles, pela primeira vez, Pateta troca seu tradicional papel secundário pelo status de protagonista, relegando o astro Mickey muitas vezes a um segundo ou mesmo terceiro plano. Outra característica marcante da série é a ousadia gráfica: a diagramação das páginas aposta em formatos pouco convencionais de molduras de quadrinhos (ou simplesmente abre mão delas) e as cenas são repletas de detalhes, nos quais vale a pena se deter um pouco mais.

Para finalizar, esta história da edição brasileira mantém a soberba tradução de José Fioroni Rodrigues (1926-2010), feita em 1978 para o número 83 do gibi ALMANAQUE DISNEY e que se mantém atual do primeiro ao último balão.


    

Cristóvão Colombo
Goofy Columbus, 1977
• Roteirista desconhecido, desenhos de Hector Adolfo de Urtiága
• Publicações no Brasil: 
     ALMANAQUE DISNEY #87 (ago/1978)
     PATETA FAZ HISTÓRIA COMO #5 (fev/1982)
     PATETA FAZ HISTÓRIA INTERPRETANDO #2 (jul/1985)
     DISNEY ESPECIAL #165 PATETA FAZ HISTÓRIA* (fev/1998)
     ALMANAQUE DISNEY #370 (jun/2005)
     PATETA FAZ HISTÓRIA #2 (12/ago/2011)
     PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (mar/2017)

* O encalhe dessa edição foi encadernado com o de outra e vendido como  DISNEY ESPECIALÍSSIMO #30.

Por Marcelo Alencar. A série Pateta Faz História nunca teve a pretensão de traçar a biografia completa de seus personagens. Em boa parte das vezes, as paródias limitam-se a abordar a infância de figuras célebres — para contextualizar datas, locais e ambientes — e depois narrar fatos significativos da trajetória de cada uma. A série também brinca com tipos ficcionais, extraídos de clássicos da literatura.

No caso de Cristóvão Colombo, o roteiro consome 11 páginas sugerindo que vieram da tenra idade as principais convicções daquele que se tornaria um dos pivôs das chamadas Grandes Navegações. Contrariado por tudo e por todos, o garoto insiste na tese de que nosso planeta é esférico e usa um balão de gás (um dos muitos elementos anacrônicos do enredo) para sustentar seus argumentos. Em seguida, pinta nesse mesmo balão um mapa-múndi detalhado, com o Novo Mundo retratado com exatidão profética.

Sem parar de explorar lacunas e saltos temporais, a trama cita o conceito de gravidade, estabelecido por Newton dois séculos depois, além de incluir nos cenários vários itens típicos do mundo contemporâneo, como televisão, rádio, telefone, semáforo e agência de viagens. Tudo isso convida o leitor a procurar coerências e absurdos visuais cena após cena, julgando a pertinência de cada desenho numa HQ em que o nonsense dá o tom até o último quadro.

Curiosidade: muito antes de interpretar Colombo nos gibis, Pateta encarnou o almirante genovês nas telas de cinema. Foi em 1944, num pequeno trecho do cartoon Como Ser um Marinheiro. Se tiver a oportunidade, compare as duas divertidas versões e suas coincidências.

    

Marco Polo
Mickey Marco Polo, 1977
• Roteiro de Cal Howard, desenhos de Hector Adolfo de Urtiága
• Publicações no Brasil: 
     PATETA FAZ HISTÓRIA COMO #2 (nov/1981)
     PATETA FAZ HISTÓRIA INTERPRETANDO #4 (ago/1985)
     PATETA FAZ HISTÓRIA #9 (30/set/2011)
     PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (mar/2017)

Por Planeta Gibi. Nesta série, poucas vezes Pateta delega o papel-título a outro personagem. Uma dessas exceções ocorre aqui, onde é convidado por Mickey Marco Polo para acompanhá-lo em sua histórica (ou lendária, como afirmam alguns) viagem à China. Pateta poderia ser um anônimo qualquer nessa HQ — se não tivesse o talento para roubar a cena em todas as suas aparições. Logo de cara ficamos sabendo que ele vendeu tudo o que possuía em casa para poder empreender a viagem. Decidem então partir da bela Veneza para sua expedição. Pateta atravessa a porta de casa e mergulha direto no canal. “Sempre esqueço que moro em Veneza”, desculpa-se para um já impaciente Mickey. Estamos só no comecinho de nossa história e muitas outras piadas com os canais da cidade se seguem, ficando definitivamente entre as mais inspiradas da série. 

Já no navio, Pateta e Mickey são tapeados pelo imediato (e único tripulante da nau, passando-se por capitão, camareiro e delegado) que lhes vende malas, pasta de dente e passaporte, numa sequência inacreditável de extorsão e nonsense.

Na Palestina, os viajantes partem para a longa travessia da Pérsia sobre uma camela geniosa — que em dado momento, apesar de suas desavenças com Pateta, passará a ser carregada em suas costas. Finalmente, chegam ao destino mas deparam-se com uma intransponível Muralha da China (e até o narrador da HQ faz piada com a direção que eles escolhem para seguir).

Mickey Marco Polo é atípica no que se refere aos vilões. Dessa vez não há Bafo-de-Onça ou Metralhas para atrapalhar, apenas uma cambada de desastrados beduínos que participam de uma das melhores cenas da HQ e acabam voltando 24 anos depois para completar o serviço, agora cruzando os canais de Veneza sobre seus camelos (!).

Acompanhado de seu pai e de um tio, o verdadeiro Marco Polo tinha muitos objetivos a alcançar em sua grande viagem. Um deles era chegar na China do imperador Kublai Khan, o quinto Grande Khan do Império Mongol. Na HQ não há cunho diplomático, somente comercial. Mickey e Pateta apenas almejam as riquezas que podem obter por lá e acabam não sendo recebidos com tantas honrarias como ocorreu com a real expedição (na verdade, a chegada inesperada quase custa a vida de nosso amigo Pateta).

A viagem de Marco Polo à China já foi contada em detalhes noutra HQ Disney, com Donald no papel principal (vista em CLÁSSICOS DA LITERATURA DISNEY #6, de 2010). Já na série francesa Mickey Através dos Séculos, o camundongo viaja no tempo e acaba se encontrando com o Marco Polo em pessoa (inédita no Brasil).


    

Galileu Galilei
Goofy Galileo, 1977
• Roteiro de Carl Fallberg, desenhos de Hector Adolfo de Urtiága
• Publicações no Brasil: 
     ALMANAQUE DISNEY #85 (jun/1978)
     PATETA FAZ HISTÓRIA COMO #4 (jan/1982)
     PATETA FAZ HISTÓRIA INTERPRETANDO #3 (jul/1985)
     DISNEY ESPECIAL #165 PATETA FAZ HISTÓRIA (fev/1998)
     ALMANAQUE DISNEY #371 (jul/2005)
     PATETA FAZ HISTÓRIA #3 (19/ago/2011)
     PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (mar/2017)

Por Planeta Gibi. Este episódio é um dos mais famosos e bem humoradas da série, com Mickey fazendo divertido uso de metalinguagem para ironizar sua condição de personagem secundário — e, eventualmente, nada mais que figurativo. Brincadeiras com anacronismos, uma das marcas da série, continuam neste episódio. Logo no início, Pateta sugere que joguem boliche e seu amigo retruca ser impossível, já que estão em 1609 e o jogo ainda não foi inventado. Poucas páginas depois, também, o fabricante de óculos atende o telefone, aparelho que só seria inventado em 1876.

A sucessão de gags suaviza a temática por vezes desconfortável da biografia do cientista, como seu julgamento por defender o heliocentrismo. Tampouco é sublimada a passagem que marca a superação de ideias aristotélicas pelos pilares da ciência moderna, fincados por Galileu. Muito ao contrário, não só esse tema é abordado como, de quebra, ainda ficamos sabendo como a Torre de Pisa ganhou sua célebre inclinação! Pura genialidade dos quadrinistas, claro.

Pateta Galileu Galilei foi a segunda história da série a ser publicada no Brasil, em ALMANAQUE DISNEY #85 (jun/1978). Pouco mais de três anos depois, a Editora Abril lançou uma coleção reunindo doze aventuras da série. Alguns países europeus já haviam feito algo semelhante, mas por aqui tivemos um bônus muito significativo. Cada HQ era introduzida por boas tiradas de Pateta e Mickey, brincando com as situações que iriam viver nas páginas seguintes e com as aventuras que haviam acabado de protagonizar. Esses quadrinhos foram especialmente produzidos pelos Estúdios Abril em São Paulo, desenhados por Roberto Fukue. De um total de 36 páginas, dez delas puderam ser revistas quando DISNEY ESPECIAL #165 (fev/98) teve como tema justamente a série Pateta Faz História

A trajetória de Galileu foi revisitada há não muito tempo pelos personagens Disney. Em TIO PATINHAS #544 (nov/2010), é Prof. Pardal quem faz o papel do cientista. E ainda que tenha a companhia dos atrapalhados Donald e Peninha, a trama ali é conduzida de forma mais contida, passando ao largo de alguns dos pontos mais polêmicos da vida do físico italiano.

    

20.000 Léguas Submarinas
20,000 Leagues Under the Sea, 1978
• Roteirista desconhecido, desenhos de Hector Adolfo de Urtiága
• Publicações no Brasil: 
     ALMANAQUE DISNEY #190 (mar/1987)
     DISNEY ESPECIAL #135 OS NAVEGANTES (nov/1992)
     PATETA FAZ HISTÓRIA #11 (14/out/2011)
     PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (mar/2017)

Por Planeta Gibi. Pela primeira vez nesta série, o papel de maior destaque cabe a Mickey, aqui interpretando o Professor Aronnax, convidado a participar da expedição que buscará o suposto monstro marinho que vem destruindo embarcações nos mares do Sul. Pateta, antes do embarque, vive o papel de si mesmo. Já na fragata, faz as vezes do arpoador Ned Land. O trio da obra original completa-se com um personagem novo, Gualberto Blablá, na pele de Conseil, o assistente de Aronnax. Outra figura, um velho e surdo arpoador cuja função no início da HQ é basicamente divertir o leitor com sua má sorte, irá se revelar de grande importância ao final. Outro personagem Disney que ganha destaque neste episódio é João Bafo-de-Onça, como Capitão Nemo (mas ele é simplesmente chamado de Bafo, enquanto que o submarino nuclear Náutilus é chamado jocosamente de "Náuseus").

A base da HQ é a quadrinização produzida em 1955 do longa-metragem da Disney. Alguns diálogos chegam a ser reproduzidos integralmente, como no momento em que o trio de náufragos localiza a escotilha do submarino. No interior do Náuseus, a HQ descola-se do filme e parte em rumo próprio. Pateta informa que Bafo é o maior inimigo de Mickey e a trama se desenrola e finaliza num estilo similar ao das grandes aventuras desenhadas nos anos 1960 pelo mestre Paul Murry — porém, sem perder a verve cômica esperada nesta série. A justificativa para o estrago que causa nos navios com seu artefato não carrega um traço sequer da tortuosa nobreza do Nemo original: aqui, o bandido detesta rutabagas (uma espécie de nabo) e afunda todos os navios carregados desse vegetal na esperança de erradicá-lo do mundo.

Ah, sim... o leitor ficará curioso em saber a qual filme Pateta se refere na HQ. Trata-se do cult A Ilha das Almas Selvagens (Island of Lost Souls, 1932; lançado em 1933 pela Paramount), baseado no livro A Ilha do Dr. Moreau, de H.G.Wells (também autor de Guerra dos MundosO Homem Invisível e A Máquina do Tempo, entre muitos outros). Foi pelo uso nesse filme que a frase "os nativos estão inquietos esta noite" tornou-se um clichê. O homem de branco com chapéu panamá, citado e imitado na HQ por Pateta, foi feito por Charles Laughton (dr. Moreau). O filme ganhou remakes, dentre eles um que alcançou notoriedade por ser estrelado por Marlon Brando em 1996.

Este episódio da série Pateta Faz História foi publicado pela primeira vez nos EUA em 1978, em versão capa dura distribuída como brinde numa promoção de um creme dental — tratamento igualmente dado aos capítulos A Volta ao Mundo em 80 Dias e Pateta Van Winkle. No Brasil, Pateta nas 20.000 Léguas Submarinas estreou em ALMANAQUE DISNEY #190 (1987).

Já 20.000 Léguas Submarinas, o filme, teve mais de uma adaptação para os quadrinhos disneyanos. A mais popular delas, citada acima, foi desenhada por Frank Thorne e saiu em 1955 no EUA. No Brasil, foi primeiro publicada em DIVERSÕES ESCOLARES, em seis capítulos, a partir da edição #12 (Editora Abril Didática, 1961-62). Em 2010, pudemos revê-la em CLÁSSICOS DA LITERATURA DISNEY #12. Essa edição de CLD, a propósito, também mostrou Mickey e Pateta viajando no tempo numa máquina do Professor Zapotec e encontrando-se com Nemo.

A versão de 20.000 Léguas publicada em CLD #12 manteve praticamente a tradução da Abril feita em 1969. No entanto, o nome de alguns personagens foram ajustados. Assim, Prof. Arronax passou a ser chamado de Prof. Aronnax (como aparece no livro e no filme; a versão "Arronax" deve ter sido utilizada pela Abril apenas para aproximar a grafia da pronúncia), e seu assistente, Conseil, foi alterado para Conselho (de fato, há traduções do livro que mostram assim grafado o nome do assistente; no entanto, nem nos quadrinhos Disney nem nas legendas do filme o nome é traduzido para o português).


    

Rei Arthur
Goofy Arthur, 1978
• Roteiro de Cal Howard, desenhos de Hector Adolfo de Urtiága
• Publicações no Brasil: 
     PATETA FAZ HISTÓRIA COMO #4 (jan/1982)
     DISNEY ESPECIAL #165 PATETA FAZ HISTÓRIA (fev/1998)
     PATETA FAZ HISTÓRIA #14 (4/nov/2011)
     PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (mar/2017)

Por Planeta Gibi. Há muitas lendas sobre Rei Arthur, seus cavaleiros da Távola Redonda, a espada mágica Excalibur e o mago Merlin. Mais tarde, seriam acrescentados aos contos arturianos mais elementos, incluindo o Santo Graal.

Os relatos se diferenciam conforme a fonte e a época em que foram escritos. Nas versões mais populares, o último ato do rei Uther, ferido de morte, é cravar Excalibur numa pedra e decretar que dali ela só seria arrancada por aquele que fosse digno de empunhá-la. Por consequência, tal pessoa iria se tornar o rei da Grã-Bretanha.

Pois a façanha seria realizada, muitos anos depois, por um jovem escudeiro chamado Arthur. Justamente o filho de Uther, tomado ainda bebê por Merlin e entregue aos cuidados de uma família de cavaleiros. Sem conhecer sua origem, Arthur atua como escudeiro até o dia em que casualmente extrai da pedra o objeto mágico tão cobiçado por muitos.

Assim como em Pateta Rei Arthur, não é incomum Excalibur aparecer fincada numa bigorna, ao invés de numa rocha. A própria Disney já a mostrara assim no clássico animado A Espada Era a Lei (1963). A HQ pega emprestada desse longa metragem de animação, a propósito, a ideia do torneio para se determinar um novo rei (já que ninguém consegue extrair a espada mágica e a Grã-Bretanha necessita com urgência de um comandante). Também o motivo e a maneira como Pateta chega à espada são similares aos do desenho.

Diferentemente do que ocorre nas narrativas mais conhecidas, em Pateta Rei Arthur é Merlin quem coloca Excalibur na pedra, e não o rei Uther. Vivido por Mickey, o mago pouco aparece na história, já que a maior parte da trama se desenrola no castelo de Dom Báfio, papel de João Bafo-de-Onça. Lá, o escudeiro Pateta submete seu senhor, inocentemente, a toda sorte de pancadas, tombos e cabeçadas, antes de lançá-lo literalmente aos jacarés e esmagá-lo sob a ponte levadiça (tudo em querer, é claro).

Tal sequência, antológica, inscreve-se com folga entre as mais inspiradas e bem resolvidas dos quadrinhos de humor. O desespero de Pateta para avisar seu senhor da proximidade dos jacarés (ou seriam crocodilos, Pateta?) é exemplo de tirada magistral, novamente valorizada pela tradução afiada e com toques de ironia de José Fioroni Rodrigues.

Pateta Rei Arthur é repleta de exageros e piadinhas discretamente (ou não muito) espalhadas aqui e ali. Logo no primeiro quadro vemos um cavaleiro lendo um jornal enquanto suas botas de ferros são... lubrificadas! Duas páginas adiante, temos a inusitada aparição do Pato Donald (em forma de silhueta) na insígnia da esmolambada capa de outro cavaleiro. Ao seu lado, mais nonsense: um camarada surge montado numa vaca que usa um elmo Viking (ou, melhor explicando, um capacete com chifres que as óperas do século XIX inventaram para caracterizar aqueles nórdicos). Em seguida, entre os candidatos a remover a espada da pedra, há desde um jogador de beisebol (com um prego na ponta do bastão, para conferir um ar mais primitivo, digamos, àquele esporte) até um cãozinho que é um misto de Totó com o Homem de Lata de O Mágico de Oz!

Uma similaridade com o tema deste episódio é encontrada no curta animado Cavaleiro por um Dia, de 1946, passado igualmente na Idade Média. Nele, Pateta é o escudeiro Cedric, obrigado a tomar parte em um torneio quando seu cavaleiro é acidentado.

Por fim, vale registrar que foi em A Espada Era a Lei que surgiu no universo Disney a adorável bruxa Madame Min. Numa das sequências mais memoráveis dos Clássicos Disney, ela trava uma batalha de metamorfoses animalescas com o mago Merlin — e, por ser desonesta, leva a pior no final.

    

Beethoven
Goofy Beethoven, 1978
• Roteiro de Cal Howard, desenhos de Hector Adolfo de Urtiága
• Publicações no Brasil: 
     PATETA FAZ HISTÓRIA COMO #1 (out/1981)
     PATETA FAZ HISTÓRIA INTERPRETANDO #5 (set/1985)
     PATETA FAZ HISTÓRIA #4 (26/ago/2011)
     PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (mar/2017)

Por Planeta Gibi. Ludwig van Beethoven foi uma daquelas personalidades que desde criança surpreenderam por suas habilidades inatas. E este episódio faz divertido uso dessa característica, como o choro “em si bemol” do bebê Pateta, segundo seu pai.

Na vida real, contudo, logo surgiu a obsessão do pai em tornar o filho prodígio um novo Mozart, sobrecarregando-o de aulas de música desde cedo. Esse relacionamento algo conflituoso é habilmente convertido pelos quadrinistas numa comédia abrutalhada, incluindo a substituição do alcoolismo do sr. van Beethoven pelo vício por comida. Já o notório afeto que o filho nutria pela mãe é muito bem transmitido por Pateta no desenrolar da trama, sobretudo perto de sua conclusão, quando um acidente ocorre. Ainda assim, Maria Magdalena van Beethoven não tem seu nome mencionado nos quadrinhos, ao contrário do pai, Johann, numa rara citação do gênero nessa série.

Literalmente carregando o piano nas costas, o talento de Pateta Beethoven ganha notoriedade pública (e muito dinheiro) ao ar livre, nas ruas de Viena. De fato, é sabido que o músico não se desincumbiu de carregar seu fardo, cuidando de seus irmãos mais novos quando seus pais faltaram.

Outra vez relegado a papel menos do que secundário, Mickey aparece aqui como Mozart. Muitos biógrafos relatam que Beethoven chegou a ter algumas poucas aulas com o célebre gênio musical. Outros, porém, contestam essa versão. Curiosamente, Pateta também teve seu dia de Mozart: em 1990, o gibi americano GOOFY ADVENTURES #4 publicou uma gag de uma página, sem palavras, com o título Pateta Mozart: Momentos Inspirados dos Grandes Compositores #1

Comuns nessas histórias, as menções e aparições de eletrodomésticos inimagináveis na época retratada, como o televisor e a geladeira, dão aquele peculiar toque de nonsense à trama, e que tão bem se ajusta à personalidade sempre inocente de Pateta, não importa qual personagem ele esteja encarnando.

Uma outra curiosidade, por fim, é a associação visual que podemos fazer, hoje, do Patetinha em fraldas que aparece na abertura da HQ com os personagens Baby Disney, uma criação brasileira de meados da década de 1980. Pensados para estrelar algumas linhas de produtos, as versões bebê de Mickey, Donald, Pateta e até de João Bafo-de-Onça, entre outros, logo ganhariam seus quadrinhos, produzidos na França.

    

Gutenberg
Goofy Gutenberg, 1978
 Roteiro de Cal Howard, desenhos de Hector Adolfo de Urtiága
• Publicações no Brasil: 

     PATETA FAZ HISTÓRIA COMO #2 (nov/1981)
     PATETA FAZ HISTÓRIA INTERPRETANDO #6 (out/1985)
     PATETA FAZ HISTÓRIA #8 (23/set/2011)
     PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (mar/2017)

Por Planeta Gibi. Em Pateta Gutenberg, Clarabela surge novamente como mãe do protagonista. E mais uma vez ela defende com braveza o filho peralta das críticas alheias — mas não o poupa, porém, de suas próprias queixas. A impaciência de Clarabela com as invencionices do menino culmina com a reação da mãe à partida do filho para Estrasburgo: a piada é ótima, inesperada e, dirão alguns, algo cruel se confrontada com a inocência habitual de Pateta. Mas é perfeita para que fique desde logo estabelecido com os leitores o nível de humor escrachado e nonsense que permeará toda a história.

É notório o acertado timing das gags nos episódios da série. Em Pateta Gutenberg, contudo, chega-se à perfeição: é primorosa a sequência do restaurante, por exemplo, onde nosso astro surpreende todos com sua decisão de comprar 200 litros de sopa de letrinhas. Os criadores da HQ esticam a cena habilmente, sem pressa e sem perder o ritmo. O resultado assemelha-se a um storyboard possível de um filme dos irmãos Marx. Também as soluções propostas por Pateta são hilárias. Ora, Johannes Gutenberg justamente ficou célebre por utilizar tipos de chumbo, incomparavelmente mais duradouros do que as matrizes de madeira que se prestavam até então para impressões rudimentares. Aqui, a ideia de usar macarrão para essa finalidade só não é mais absurda do que o método que Pateta encontra para secá-lo (ainda bem que ele tem ao seu lado Mickey, sempre disposto a tentar organizar as ideias não tão brilhantes do amigo).

A zombaria à invenção máxima de Gutenberg segue até o final: ao invés de sermos brindados com os resultados de tão revolucionário equipamento, o que vemos é uma cidade emporcalhada com a infinidade de cartazes que ele ajuda a produzir.

É curioso notar que Pateta Gutenberg parte da primeira versão, de 12 páginas, reaproveitando a arte do genial Al Hubbard (primeiro desenhista de Peninha e Urtigão, entre outros), estendida por Hector Adolfo de Urtiága para as 44 páginas, padrão da nova série.

Gutenberg já deu as caras em outra HQ Disney, pelo menos. Na década de 1950, Mickey viajou no tempo e conheceu-o pessoalmente. Inédita no Brasil, essa história é uma das aventuras da duradoura série francesa Mickey Através dos Séculos, que chegou a ganhar em 1976 uma compilação luxuosa pela Editora Abril.

Curiosidade extra: quando os Estúdios Abril traduziram essa HQ no início dos anos 1980, um caco foi introduzido entre as inúmeras plaquinhas da última página. Numa delas se lê “Cão Fila Km 22”. A inscrição, enigmática para muitos, começou a ser pichada nos anos 1970 em muros, postes e até em barrancos de toda São Paulo. Ficou tão popular que acabou sendo reproduzida no resto do país. O fenômeno chegou a ser analisado pela revista Veja em 1977 (edição #461), quando finalmente teve seu significado explicado em nível nacional: tratava-se da propaganda de um canil nos arredores de São Paulo.


 

 

 



Acima, DISNEY DE LUXO #12 ESCOTEIROS MIRINS (384 páginas em papel couché) X PATETA FAZ HISTÓRIA — COLEÇÃO DEFINITIVA #1 (360 páginas em papel offwhite pigmentado): o volume é maior e o resultado é um ar vintage, que a editora julgou ser mais apropriado para a apreciação da obra.

◼ VEJA TAMBÉM:

• Veja aqui o Guia Planeta Gibi Pateta Faz História.
• Leia aqui a entrevista que o arte-finalista da série PFH, Rubén Torreiro, concedeu ao Planeta Gibi.
Veja aqui o Guia Planeta Gibi COLEÇÃO CARL BARKS DEFINITIVA.
Veja aqui o Guia Planeta Gibi DISNEY DE LUXO.
Veja aqui o Guia Planeta Gibi DISNEY MANGÁ.
Veja aqui o Guia Planeta Gibi DonaldDuplo.
Veja aqui o Guia Planeta Gibi A HISTÓRIA DO FILME EM QUADRINHOS.


► Por Edenilson Rodrigues.
► Fontes: divulgação, Acervo Planeta Gibi.
► Publicado originalmente em 30/mar/2017.
► Atualizado pela última vez em 17/abr/2017.



18 comentários:

  1. A Abril divulgou quando pretende lançar o resto dos volumes de Pateta Faz História - Coleção Definitiva ? Que outras séries disney ganharão edição em capa dura ?

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  2. Já que mudaram o papel, não sendo mais o couché, o preço irá cair ?

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    1. O papel é offwhite não para baratear custo, mas porque pareceu à editora ser mais adequado para a apreciação da obra. Ele é mais espesso e recebeu pigmentação, assim como o papel de Barks. PFH foi publicado em 2011 em papel offset, bem mais fino que o atual. Na coleção alemã, que é a base de tudo isso, também foi usado offset. Acrescentei uma foto para comparação com ESCOTEIROS MIRINS.

      Abs.

      Edenilson

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    2. Claro q não. Aumentaram o preço para absurdos 70 reais... isso q já tinham tudo pronto praticamente, só fizeram diagramar num papel maior e imprimir... fazer o público pagar 70 reais por um material bem menos custoso q os últimos encadernados todos, com trabalho de tradução, direitos autorais e outros, beira à sacanagem. E, sim, o custo do papel n aumentou 10 reais esses dias...

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    3. Apesar de ser maior, a diagramação é praticamente a mesma das edições em capa cartonada lançadas há 6 anos atrás. Quando chegar nas histórias da série produzidas nos anos 1980, com 4 tiras por páginas, a arte ficará bastante prejudicada. Além disso tudo, esta edição em capa dura tem bem menos informações e menos material extra que as edições em capa cartonada. De "definitiva", esta coleção não tem nada.

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  3. É o mesmo papel do Barks, então ?? O papel do Barks, pra mim é o melhor que tem... não gosto muito do LWC

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  4. Todos capas duras deveriam ter uma versão capa cartonada.

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  5. O papel fosco da coleção do Barks é realmente excelente. Esta coleção do "Pateta Faz História" é um verdadeiro tesouro. Realmente será mais uma coleção que fará juz ao título de "definitiva".

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  6. "Cão Guia Km 22" muito boa essa, nunca tinha ouvido falar.

    A Abril mandava bem, nessas inserções de trivialidades de nossa sociedade.

    Isso criava uma sensação de pertencimento muito bacana.

    Assim como apelidar de Tucão aquele meliante reincidente nas histórias do DD de Miler.

    Hoje em dia, é impensável. O Mundo tá muito careta, Edenilson.

    Abs,
    VAM!

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  7. Nossa, vai custar 70,00! Usando papel mais em conta... Olha vou lhes contar, serão esses os primeiros capa dura que NÃO VOU COMPRAR. A ganância de certos empresários parece não ter limites! Na crise que está, aumentar ainda mais o preço e colocando um papel mais em conta!?! Estou fora desses, e de qualquer outro que venha com esse papel custar 70,00! Abraços a todos.

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    1. Estou preocupado com o custo total destas coleções. Estou a fazer a do Barks e agora, a do Mickey, além de comprar o Disney Especial. Se o preço continuar em p.g. terei que abandonar alguma ou todas. Uma pena.

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  8. Em meio a atual crise, não entendo porque a Abril não trabalha com capa cartonada.

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    1. É o que mais gostaria de ter da Abril, material em capa cartonada, folhas em lwc e formato maior, o problema é que os colecionadores não pedem por isso.

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    2. Sinceramente, gosto da capa dura.
      Se fosse cartonada não teria o mesmo apreço por colecionar essas edições.
      Abril poderia oferecer, se possível, as duas opções.

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  9. Estou começando á achar muitas edições especiais ao mesmo tempo,vou ficar com os Disney de Luxo capa dura e com Barks o resto por questões econômicas vou deixar Passar.

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  10. Não dá idéia que do jeito que eles são logo transformarão as capas duras em cartonadas após um aumento de mais uns R$10,00!!! Abraços a todos.

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  11. Alguém sabe quando sai o segundo volume?? E o próximo Donald por barks? Sai quando??

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    1. Sai em maio. Próximo Barks sai nos próximos dias (vide post VEM AÍ, na barra de menus, em Checklists, e o próprio Checklist Disney deste mês).

      Abs.

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