' '

12 de abr de 2012

ESSENCIAL DISNEY #7 — Mickey Versus Mancha Negra

Por E. Rodrigues & Rivaldo Ribeiro

Mancha Negra surgiu nas tiras de jornais bem na eclosão da 2ª Guerra Mundial, em 1939. Carregou, certamente por isso, todos os simbolismos malévolos que o nazismo poderia lhe impingir. Curiosamente, seu desenhista, o mestre Floyd Gottfredson, jamais retornaria ao personagem. E sua popularidade só viria na década de 1960, com o genial Paul Murry imprimindo-lhe características mais maleáveis (ou palatáveis) e, portanto, abrindo-lhe novas possibilidades. A Itália, que adotara o vilão antes mesmo de Murry, tomou rumo distinto dos americanos (ainda que Casty, também presente nesta edição de ESSENCIAL DISNEY, por vezes emule o mestre Murry). Já o Brasil buscou manter sua aura de mistério, mas conferiu-lhe mais humor (negro, sem trocadilho). E você sabia que Mancha já foi aqui chamado de O Fantasma e de Borrão Vermelho? E que Mickey já o desmascarou numa HQ brasileira? Veja as curiosidades que envolvem o personagem e as imagens e resumos das HQs deste volume, a seguir.     


Mickey Versus Mancha Negra

Por José Rivaldo Ribeiro. O mais cruel dos inimigos de Mickey surgiu nas tiras dos jornais americanos em 1939, em Mickey Mouse contra o Mancha Negra. Com trama e desenhos do mestre Floyd Gottfredson e roteiro de Merril De Maris, a história levou quatro meses para chegar ao final, com Mancha desmascarado e, ironicamente, mostrando um semblante idêntico ao do próprio Walt Disney.

Apesar de ter continuado a produzir tiras com o camundongo por décadas a fio, Gottfredson nunca mais retornou à sua criação. Mickey Mouse contra o Mancha Negra também marcou a estreia do Coronel Cintra, que viria a se tornar um dos mais populares coadjuvantes do universo Disney. No Brasil, a HQ foi publicada remontada em O PATO DONALD 18 (1951). Ali, o vilão foi chamado ora de O Fantasma, ora de O Borrão (aludindo ao nome original, "Phantom Blot", algo como "Borrão Fantasma"). Em 2005, a Editora Abril publicou uma versão integral e colorizada desse clássico no volume de MESTRES DISNEY dedicado a Gottfredson.

Mancha voltaria a atacar somente a partir de 1955, desta vez pelas mãos de artistas italianos, como Romano Scarpa. Topolino e il Doppio Segreto di Macchia Nera (inédita no Brasil) partiu justamente do desfecho da HQ de Gottfredson e mostrou Mancha em busca de vingança. Em auxílio dos mocinhos intervinha Esquálidus, o amigo de Mickey vindo do futuro. Depois disso, seria comum ver o homenzinho ajudando a derrotar o vilão. Em O Roubo da Pérola Vermelha, desta edição, temos bom exemplo disso.

Quando uma dessas antigas tramas italianas foi publicada no Brasil, em meados da década de 1960, o vilão acabou estranhamente rebatizado de Borrão Vermelho (mesmo já tendo sido chamado pelo definitivo "Mancha Negra" poucos meses antes). O caso ocorreu com O Papagaio do Cientista, também de Scarpa, onde Mancha assinava seus bilhetes com um... borrão vermelho! (nas republicações, esses prováveis equívocos de cores e nomes foram eliminados). No final, era novamente desmascarado.

Aliás, aparecer sem máscara é comum nas produções da Itália (e só lá). No limite, Mancha chega a atuar por toda uma HQ em trajes civis, como em Os Autorroubos, nesta edição, que também ilustra o lado inventor do personagem. Noutra HQ mostrada nas próximas páginas, O Caso Finíssimo, o leitor poderá ter contato com o trabalho do artista italiano Casty, considerado um seguidor do mestre americano Paul Murry, justamente o reformulador do vilão e responsável pela popularização do Mickey detetive.

Foi Murry quem, em 1964, trouxe Mancha Negra de volta à produção em sua terra pátria. O artista deu ao personagem um ar menos soturno. Seus trajes ficaram mais curtos e seu lado irônico, acentuado. A mudança acabou por revelar um vilão mais cômico, que muitas vezes ia parar na cadeia por conta de suas próprias trapalhadas. Seu objetivo de destruir o arqui-inimigo Mickey foi desviado para outras direções, mais mundanas, com roubos espetaculares, seqüestros e assaltos mirabolantes. Sua satisfação passou a vir de enganar a polícia e desafiar a inteligência de seus perseguidores. Essa nova fase foi iniciada com A Volta do Mancha Negra (que estreou no Brasil no ano seguinte e em 2006 foi republicada em AVENTURAS DISNEY 17).

Murry ainda proporcionou encontros interessantes entre Mancha e outros personagens Disney, como Superpateta, Professor Pardal, Metralhas... e Madame Min. Em A Bruxa Adormecida no Bosque (1965, republicada em AVENTURAS DISNEY 48, de 2009) teria início um romance platônico singular. Ali, Min descobria-se perdidamente apaixonada pelo bandido, para desespero dele.

Os artistas brasileiros, mestres em explorar as verves cômicas e inusitadas dos figurões Disney, não deixaram mais o pobre vilão em paz: foram criadas pelos Estúdios Abril diversas histórias mostrando uma idolatria crescente da bruxa, que chega a se transformar em Mancha Cor-de-Rosa na tentativa de conquistar seu amor bandido. No auge, houve o delírio do amor supostamente correspondido mostrado na SÉRIE OURO DISNEY 4 (1987).

A produção nacional, a propósito, é marcada pela criação de parentes e alter egos para os personagens Disney. Com Mancha Negra não foi diferente. Aqui ele ganhou sobrinhos (os trigêmeos encapetados Os Manchinhas, pela infalível dupla Saidenberg & Herrero), um parente (vergonha!) honesto, o Mancha Branca, além de antepassados mostrados rapidamente numa galeria de fotos em A Ovelha Branca (TIO PATINHAS 114, de 1975).

E, falando em parentes, em Uma Historinha para a Filha do Mancha (publicada em MICKEY 505, em 1991) os americanos Lee Nordling e Stephen DeStefano mostram o vilão em cena doméstica com sua filha, cujo nome não é citado (e que nunca mais voltaria a aparecer). O surreal fica por conta de ambos trajarem-se ao estilo sombrio criado por Gottfredson, como se fossem entidades sinistras, não humanas.

É notável que, diferentemente dos italianos, tanto Murry como os demais artistas conterrâneos que lhe seguiram trataram o manto negro como parte indissociável do personagem. A produção brasileira seguiu essa linha, ocultando ao máximo os traços humanos por sob aquelas vestes.

Mas tudo tem exceção: uma curiosidade final e pouco conhecida... Mancha Negra foi desmascarado por Mickey no final da HQ brasileira O Caso das Quatro Manchas, de 1984 — talvez a única produção dos Estúdios Abril em que tal evento ocorra. Com roteiro de Ivan Saidenberg e desenhos de Verci de Mello, ali o vilão mostrou um rosto bastante parecido com aquele que lhe dera seu criador, Gottfredson. Anos depois, ainda poderíamos vê-lo noutra produção nacional sem o traje, apenas enrolado numa toalha, enquanto o roteirista brincava com o enigma do rosto do bandido, ocultado dos leitores por um providencial espelho.



O Roubo da Pérola Vermelha
Roteiro: Alberto Savini
Desenhos: Andrea Ferraris
Produzida em novembro de 2003
Mesmo num ambiente repleto de policiais, Mancha Negra não se intima e põe novamente em prática suas artimanhas, cuja perícia poderá enganar até o leitor mais atento. Tudo começa com Mickey e Minnie preparando-se para um baile à fantasia promovido por um milionário da cidade. Uma vez na festa, acabam se encontrando com Esquálidus. O que parece ser o início de mais uma noite tediosa para o camundongo, logo se torna uma grande investigação policial, após o sumiço de uma valiosa pérola vermelha. Um descuido do vilão, porém, fará a joia ir parar justamente na casa de Mickey. Agora, Mancha está decidido a reaver o produto de seu roubo e não hesitará em ameaçar cruelmente seu arqui-inimigo. 

O Caso Finíssimo
Roteiro: Casty
Desenhos: Lorenzo Pastrovicchio
Produzida em fevereiro de 2006
Parece que finalmente Mancha Negra elaborou o plano perfeito. Frestas aparentemente impenetráveis e barreiras supostamente intransponíveis deixam de ser obstáculos para o vilão-inventor. Será que Mancha descobriu enfim a fórmula da invisibilidade? Qual o mistério que envolve as fugas impossíveis e o desaparecimento inacreditável dos objetos roubados pelo mascarado? E qual é o destino cruel que Mancha preparou para Mickey? Desta vez tudo poderia dar certo, não fosse a falta de paciência do vilão com o inocente Pateta.

O Enigma Detetivesco nº 0,000002
Roteiro: Tito Faraci
Desenhos: Alessandro Perina
Produzida em novembro de 2002
Solucionar grandes enigmas não é o forte do Comissário Joca, mesmo tendo muitas pistas a seu dispor. Assim como Mickey, o leitor poderá acompanhá-lo nessa investigação. Divertida HQ passatempo com direito a surpresa no final.

Os Autorroubos
Roteiro: Marco Bosco
Desenhos: Alessandro Perina
Produzida em outubro de 2008
Não é incomum Mancha Negra aparecer desmascarado nas histórias mais recentes. Nesta aventura, porém, o leitor vai se surpreender: o bandido não aparece em nenhum momento trajando seu uniforme negro. De cara limpa, Mancha apresenta-se como o mais novo milionário de Patópolis. Ao mesmo tempo, grandes personalidades da cidade, como Mickey, veem-se misteriosamente envolvidos na prática de roubos. Agora, o grande desafio é provar que, de alguma forma, Mancha está por trás desses crimes.


Editora Abril, coleção em 20 volumes semanais, 100 páginas cor, formato 14,7 x 20,7 cm, R$ 10,00
Editor: Paulo Maffia
Introduções das HQs: Júlio de Andrade, Filho / Rivaldo Ribeiro

Desde que surgiram, nos anos 1930, os quadrinhos Disney foram sendo construídos com personagens e situações marcantes que imprimiram lembranças indeléveis em nossa memória. Formou-se em torno de cada um deles – Mickey, Donald, Patinhas e tantos outros – uma mitologia tão rica e complexa que ela passou a ser automaticamente reconhecida aos olhos do mundo. Com o passar do tempo, tornou-se desnecessário explicar a quem quer que fosse que Mickey namora a Minnie, que seu melhor amigo é o Pateta e que ele tem embates colossais com dois vilões que amamos odiar: Mancha Negra e João Bafo-de-Onça. Igualmente dispensável tornou-se apresentar Donald – sujeito irritado, azarado, que não consegue manter um emprego – ou o Tio Patinhas, sempre acossado pelos terríveis Irmãos Metralha, pelo milionário rival Patacôncio e, principalmente, pela Maga Patalójika, determinada a roubar a primeira moeda do velho muquirana para fazer com ela um amuleto e transformar-se assim na bruxa mais poderosa do mundo. Nesta nova grande coleção da Editora Abril, reunimos os assuntos prediletos que orbitam o universo Disney. Assim, ao se deparar com títulos como Tio Patinhas versus Maga Patalójika, Os Problemas Domésticos do Pateta e Os Infinitos Azares do Pato Donald, você sabe exatamente o que esperar: histórias que mostram a natureza dos personagens, os hábitos, o comportamento recorrente, as brigas, as rixas, os desafios, os laços de família e amizade. A cada volume, um novo tema. Em cada tema, uma formidável compilação de histórias em quadrinhos, clássicas e inéditas, que, acreditamos, serão tão preciosas para você quanto a Número Um é para o Tio Patinhas ou o 313 para o Pato Donald. Mais que preciosas, essenciais. 

A COLEÇÃO:
#1 — 9/mar: Tio Patinhas Versus Maga Patalójika
#2 — 9/mar: Donald e seus Sobrinhos
#3 — 16/mar: Os Problemas Domésticos do Pateta
#4 — 23/mar: Tio Patinhas e a Moeda Número Um 
#5 — 30/mar: Mickey e Minnie
#6 — 6/abr: Donald e seus Primos
#7 — 13/abr: Mickey Versus Mancha Negra
#8 — 20/abr: As Grandes Aventuras do Superpateta
#9 — 27/abr: Tio Patinhas Versus Irmãos Metralha
#10 — 4/mai: Mickey Versus João Bafo-de-Onça
#11 — 11/mai: Donald e Margarida
#12 — 18/mai: Os Passatempos Malucos do Pateta
#13 — 25/mai: As Grandes Viagens do Tio Patinhas
#14 — 1/jun: Mickey e Pluto
#15 — 8/jun: Os Infinitos Azares do Pato Donald
#16 — 15/jun: Pateta e seus Antepassados
#17 — 22/jun: Tio Patinhas Versus Patacôncio
#18 — 29/jun: Donald e seu Carro 313
#19 — 6/jul: O Detetive Mickey
#20 — 13/jul: Donald e seus Empregos que Não Duram







11 comentários:

  1. "Aliás, aparecer sem máscara é comum nas produções da Itália (e só lá)."

    Gosto também quando acontece isto, e o Mancha aparece sem a máscara.

    Parabéns Rivaldo pelo excelente texto.

    ResponderExcluir
  2. Micro-resenha dessa edição:

    Ponto Negativo: só tem história italiana...

    Ponto Positivo: não tem nenhuma história da Turma da Mônica!

    ResponderExcluir
  3. Na minha opinião essa é a MELHOR edição de Essencial até o momento. Ah como eu queria que a mensal do Mickey tivesse 100 páginas e fosse assim TODO mês.

    ResponderExcluir
  4. gostei pra caramba, as histórias são bem legais, principalmente porque revi o esqualidus e o horacio que fazia tempo eu nao lia uma história deles.

    ResponderExcluir
  5. "ESSENCIAL" vem sendo uma boa coleção. Uma pena que não cabe espaço para as primeiras HQs com o Mancha. seria ainda mais interessante.

    ResponderExcluir
  6. "Ponto Positivo: não tem nenhuma história da Turma da Mônica!"

    ^???????!!??????!!!?:p

    Ele só pode está de brincadeira de uma HQ da Turma da Mônica num gibi Disney! xD

    ResponderExcluir
  7. Conheço HQs bem mais relevantes e essenciais do Mickey contra o Mancha do que as mostradas nesse volume.

    ResponderExcluir
  8. Ponto positivo, tem uma história com roteiro do Casty o "novo" Paul Murry ou Floyd Gottfredson. O cara é semelhante ao Dom Rosa que respeita os "Mestres".

    ResponderExcluir
  9. Bem, João Vicente da Silva, tenho pra mim que o único mestre que o Don Rosa respeita é o Carl Barks. Ele ignora tudo o que não foi produzido pelo 'Mestre dos Patos'. E mesmo assim ele tomou algumas liberdades que eu não sei se o Barks aprovaria.

    ResponderExcluir
  10. ["Aliás, aparecer sem máscara é comum nas produções da Itália (e só lá)."

    Gosto também quando acontece isto, e o Mancha aparece sem a máscara.]

    A Min já o viu sem a máscara? Será que ela cantaria "Na mesma máscara negra que esconde o seu rosto / Eu quero matar a saudade" se o visse sem ela?

    ResponderExcluir
  11. Chabacano,

    Sim, a Min já viu o Mancha sem máscara uma única vez, numa HQ italiana(até onde sei).
    Aventura inédita no Brasil.

    Rivaldo

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR, POR FAVOR, LEIA:

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de quem os escreve e não refletem necessariamente a opinião do Planeta Gibi.

Não publicamos comentários que:
• Incluam quaisquer e-mails ou links;
• Mencionem outro estabelecimento que comercialize quadrinhos;
• Incluam ofensas e palavrões; fujam do tema em questão.

Atenção:
Os comentários aqui postados podem ser encaminhados para os editores que, eventualmente, poderão publicá-los nas revistas; caso não concorde com isso, explicite sua negativa no próprio comentário. Obrigado.