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23 de out de 2011

Exclusivo: Entrevista com Rubén Torreiro, artista de PATETA FAZ HISTÓRIA

Por E. Rodrigues & Rivaldo Ribeiro

O argentino Rubén Torreiro participou, ao lado de Adolfo de Urtiága, da produção de praticamente todas as HQs de Pateta Faz História — mais do que qualquer outro artista da aclamada série. Na entrevista a seguir, ele fala de seu início artístico, de sua convivência com Jaime Diaz, de seus trabalhos para a Disney (que inclui a recente produção americana DuckTales, ainda inédita no Brasil) e para outros estúdios (como Tom & Jerry e Looney Tunes).


Coleção alemã de 2006-2010: a primeira a compilar as 38 HQs da série Pateta Faz História


A coleção brasileira e a magnífica Pateta Crusoé, da edição alemã



Rubén nasceu em Buenos Aires. Atualmente mora com a família a uns 20 km dali, na cidade de Adrogue — e em breve será avô pela primeira vez. Gosta de se exercitar, caminhar, jogar paddle... de estar em forma, enfim. Por muitos anos praticou Taekwondo. Quando o tempo permite, viaja pela Argentina e também pelo Brasil (Búzios, Arraial Cabo...). Aprecia tudo isso, claro, ao tempo em que exerce sua bela profissão.

Planeta Gibi: Como começou a desenhar e quando foi seu ingresso profissional nessa arte?
Adalberto Rubén Torreiro: Bem, desde que era menino eu passava horas desenhando, copiando tudo que via, participando de concursos infantis, no ensino primário, secundário e assim por diante. Antes de completar 14 anos de idade, entrei para a Editorial Dante Quinterno (criador de Patoruzú, Patoruzito, Isidoro e outros personagens). Enquanto não cumpria o meu dever de cadete, praticava desenho guiado por verdadeiros mestres desta arte. Recém completos 15 anos, eu já atuava profissionalmente nos quadrinhos tão excitantes e desejados daquela época.

Em qual período trabalhou no Jaime Diaz Studio?
Foi uma época maravilhosa, pois meu desejo era participar dos Studios da Disney, o que consegui através do Jaime Diaz Studio. Esse período vai de 1975 a 1997, ao longo de 22 anos de enorme quantidade de trabalho. Em seguida, voltou para os Estados Unidos, de onde continuamos trabalhando alternadamente por mais algum tempo.

Sobre as sátiras históricas com Pateta. Essas histórias foram produzidas por mais de dez anos, e você esteve envolvido nisso desde o início. Você se recorda de como surgiu a ideia de se fazer quadrinhos tão fora do normal para os padrões Disney da época?
Eu não tenho informação a respeito. Comecei arte-finalizando em caráter de teste o Pateta Cristóvão Colombo, e também o trabalho de Adolfo de Urtiága [falecido no final dos anos 1980]. A combinação de ambos os trabalhos deu tão certo que a partir daí começou a saga que vocês conhecem. Foi um êxito do Jaime Diaz Studio, pois provou que na América do Sul estávamos capacitados para isso.

Os roteiros, ao que nos consta, vinham dos EUA. A equipe de Jaime Diaz Studio tinha liberdade para trabalhar na arte ou vinha algo pré-determinado junto com o roteiro?
Para garantir o melhor resultado possível, a Disney Studios sempre era consultada. Se era aprovada dava-se continuidade ao desenvolvimento das histórias.

Urtiága, Uzál, Jaime, você... Essa equipe trabalhava reunida num estúdio? Fale um pouco disso pra gente, do clima e da interação entre vocês.
Urtiága era o responsável artístico do grupo na Argentina. Em sua casa e estúdio pessoal nos encontrávamos para fazer os ajustes necessários — ou via fax nas urgências. Cada um de nós trabalhava em casa, em estúdio pessoal, sempre em contato com os EUA e Jaime Diaz Studio, até que ele se instalou na Argentina nos anos 80, fundando seu próprio estúdio de animação. Éramos um grupo fantástico de profissionais, unidos, harmoniosos e amigos de muitos anos, especialmente porque a grande maioria vinha do Editorial Dante Quinterno. E Jaime Diaz era um cara genial e correto em todos os sentidos. Não foi à toa que trabalhamos juntos por 22 anos.

Houve uma primeira leva de HQs desta série, com menos páginas e produzidas todas nos EUA, publicadas primeiro numa revista americana que foi distribuída de brinde. Logo em seguida, a equipe na qual você trabalhava começou a fazer histórias longas, incluindo o remake de algumas produções daquela primeira série, como Pateta Gutenberg (onde você completou a arte-final iniciada por Steve Steere). Quem teve a iniciativa de aproveitar a ideia de Pateta em sátiras históricas e produzir as HQs mais longas, os EUA ou a Argentina?
Como disse em questionamento anterior, desconheço os motivos. Talvez Jaime Diaz soubesse, pois era do staff da Disney. Mas, sem dúvida, as decisões eram tomadas pelos Estúdios Disney. Geralmente as histórias eram de 44 páginas, embora me lembre de uma publicação da revista do Pateta, impressa na Colômbia em 1991, Tribilin “Big Foot” (publicada com o título Los Grandes Pasos del éxito”), que tinha 10 páginas, e a arte final data de 1980. [Nota: a HQ citada por Rubén abriu o gibi brasileiro de Pateta em 1982 e, de fato, seu estilo é idêntico ao da primeira fase de Pateta Faz História, com aquela distribuição caótica de quadrinhos e humor mordaz. Há oito HQs dessa subsérie, Goofy's Tracing Service, registradas no Inducks.] De acordo com meus registros pessoais, iniciei na série com Pateta Gutenberg, fazendo as páginas 1 a 4, 17 a 32 e 38 a 40. Desconheço quem realizou o restante. Geralmente a arte-final ficava totalmente a meu cargo, salvo em caso de edições urgentes.

As primeiras 17 HQs da série, até 1980, tinham 3 tiras por página. No ano seguinte, mudaram para 4 e o visual ficou mais comportado. Houve algum motivo ou determinação especial para essa mudança?
É muito provável que tenha sido para fazer a arte brilhar mais e ter mais espaço para desenvolver as histórias.

De quais HQs que produziu para a Disney você mais gosta? Dava para se divertir enquanto trabalhava nelas?
Pessoalmente eu gosto de todos os personagens. Eu realmente gostei de fazer esta série especial do Pateta. Tanto quanto as séries Conexão Salva-Ação, DuckTales, Darkwing Duck, Sir Lock Holmes, Esquadrilha Parafuso etc. E uma infinidade de quadrinhos chamados standard. Para mim é sempre uma diversão. É um mundo de fantasia e alegria e devemos transmitir isso para aqueles que nos seguem em todo o mundo.

Parece-nos que os quadrinhos Disney na Argentina não são mais publicados regularmente, diferentemente do Brasil, onde temos essas revistas há mais de 60 anos ininterruptos. Você vê alguma razão especial para essa diferença?
Lamentavelmente, não [são mais publicados regularmente na Argentina]. Fico muito feliz que no Brasil sigam mantendo viva a chama desse mundo de fantasia. Os motivos podem ser econômicos, os computadores, os videogames... Publica-se alguma coisa, mas não tanto como deveria.

E, falando nisso, como anda o mercado de quadrinhos na Argentina? Há algo que o atrai particularmente?
Há grandes artistas. A demanda por quadrinhos na Argentina depende, principalmente, de projetos e de investimentos, publicando edições independentes de diferentes estilos ou autorais. Acho que, salvo no Brasil, a arte licenciada fica toda nos EUA e Europa. De modo geral, todos trabalham para o exterior.

Você ainda trabalha com quadrinhos? Fale-nos sobre sua arte, fora da Disney.
Sim, é claro, completei 60 anos há pouco, e continuo trabalhando para diversos estúdios na Argentina, realizando a arte final e lápis de Tom & Jerry, ilustrações para histórias infantis de Blason Studio, arte final de uma coleção de A Cuatro Manos Estudio, DuckTales e Darkwing Duck para a americana KABOOM!... Entre 1991 e 2009 trabalhei nos Looney Tunes da Warner/DC, e entre 2006 e 2008, nos quadrinhos do Pato Donald da Holanda (Sanoma Media). Recentemente participei da Expo-Comic' 11 e Multimedia  3º Salón Internacional del Cómic, em Santiago do Chile.

Pateta Faz História é uma das séries de quadrinhos mais aclamadas no Brasil, que é o segundo país do mundo a publicá-la na íntegra, e em coleção única. Você gostaria de dizer algo aos leitores e colecionadores de quadrinhos Disney do Brasil?
O que posso dizer, além de agradecer ao leitores e colecionadores do Brasil, país pelo qual tenho grande admiração?! Obrigado! Muito obrigado! Por manter viva a criança que cada um tem dentro de si e por transmitir às crianças esse gosto, o prazer dessa pequena contribuição dos quadrinhos para a felicidade de suas vidas.


Original de Pateta Pasteur: copyright 1983 da Walt Disney Productions

Produção para a Holanda

Idem

DuckTales, publicada este ano pela americana BOOM! Studios


Idem


Produção de A Cuatro Manos Estudio


Idem



As imagens acima foram cedidas por A. Rubén Torreiro. Clique nos desenhos para ampliá-los.



Os artistas de Pateta Faz História:

Hector Adolfo Urtiága (desenhos)
Rubén Torreiro (arte-final)
Cal Howard (roteiro)
Anibal Uzál (desenhos)
Carl Fallberg (roteiro)
Carlos Valenti (arte-final)
Greg Crosby (roteiro)
Tom Yakutis (roteiro)
Horacio Saavedra (desenhos)
Steve Steere (arte-final)
Floyd Norman (roteiro)
Larry Mayer (desenhos e arte-final)
Al White (arte-final)
Al Hubbard (desenhos)

8 comentários:

  1. O que é uma hq? Para mim, é a expressão artística de mentes criativas, fazendo brotar de uma folha em branco, traços e cores, num mundo de sonhos e fantasias.

    Muito interessante esse making off de PFH. Pessoas reais dando o melhor de si, para encantar e divertir os leitores anônimos mundo afora.

    Como um diamante multifacetado, todos os dias descobrimos um novo brilho nos queridos quadrinhos Disney.

    São pérolas, pepitas ou gemas brutas, que afloram nos gibis, lapidadas nas mãos de sábios ourives ou como costumamos carinhosamente chamar: "Mestres Disney".

    Muito Obrigado.

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  2. Muito boa entrevista. Apesar de preferir os patos sou fã incondicional da série Pateta Faz História e é sempre bom saber um pouco mais das mentes por trás dessas obras.Parabéns Planeta Gibi e obrigado Rubén.

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  3. Oi. Achei simplesmente fantástica a entrevista. Fugiu das perguntas óbvias que todos vemos por aí e abordou o que realmente interessa. Parabéns! Passando uns dias, vou divulgar no meu site, claro, com os créditos do Planeta Gibi.

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  4. Que Maravilha estar em contato direto com uma das fontes das histórias que acompanhamos e que fazem parte de nossas vidas.

    Eu me sinto particularmente realizado em poder conhecer e contemplar as pessoas que nos proporcionam, através dos quadrinhos, momentos de alegria e prazer.

    Gracias, Rubén.

    E obrigado ao pessoal do Planeta Gibi, por me proporcionar a possibilidade de, através de vocês, estar em contato com alguém que contribui para o sucesso da arte dos quadrinhos, os quais há anos me permitem (amanhã faço 41 de idade e 32 de gibis Disney) momentos de emoções que, felizmente, não deixei de sentir com a passagem da infância para a idade adulta, mas que se renovam com a leitura de cada uma dessas histórias especiais.

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  5. Só agora tive tempo para ler...espetacular a entrevista!:)

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  6. Os argentinos têm mesmo que ter muito orgulho de serem os (quase) donos desta senhora subsérie com o Pateta (aprendi a chamar de subsérie com o coa.inducks).

    Mudando de assunto, vocês bem que poderiam fazer uma matéria com o Jaime Diaz Studio, relacionando as 100 melhores hqs produzidas com os PATOS por este estúdio. Vai ser um show! E não custa nada, né?

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  7. Para isso teríamos que fazer iniciar uma nova série, semelhante a 60 Anos Bem Contados e Pateta Faz História. Mas antes vamos atualizar e avançar Família Pato e Don Rosa — após a conclusão de Pateta. E será iniciada uma nova série, que pelo menos na concepção pareceu-nos que será bem divertida (e nada original, admitimos!).
    Abs.
    E.Rodrigues

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  8. Parabéns ao Planeta Gibi por mais uma grande entrevista! =D

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