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29 de mar de 2011

Júlio de Andrade Filho: Entrevista, Parte 2

Dois Gibis para o Pato Donald
Challenger e A Patada
Margarida
Cancelamentos
Disney X Mauricio
O Casamento do Pato Donald e o Disneyverso Vetado
Anos de Ouro do Mickey (e Outras Vítimas da Crise)
CRUJ
Zé Carioca de Boné e Tênis
Superalmanaque


A IDEIA DE DOIS GIBIS SIMULTÂNEOS DO PATO DONALD
Planeta Gibi: E quando você voltou da RGE, teve aquele Patão...
Júlio de Andrade: Desde que eu entrei na Abril, até sair em 2000, com minhas idas e vindas, todo diretor novo que chegava queria saber por que a gente não tinha um "Topolino"? Todos queriam botar matéria numa revista. Por isso que, se você olhar para trás, verá que já teve MICKEY com matéria, CLUBE DO MICKEY... E o PATO, que durou um ano. PATO DONALD com matérias e formato maior começaria de forma experimental e mensal. E continuaria existindo o PATO DONALD em formatinho e quinzenal. Mas a ideia não avançou.

Por este motivo é que a primeira edição do novo PATO DONALD traz o código PDM01 nas histórias, identificando a revista como PATO DONALD MENSAL #1, e não como PD1751, como seria o esperado?
Isso mesmo. Outro teste foi feito lá pra frente [em 1997], em formato americano.


A CAPA DA EDIÇÃO EXTRA A PATADA E A EXPLOSÃO DA CHALLENGER
Pouco depois da explosão da Challenger, em 1986, o gibi A Patada chegou às bancas com uma capa fazendo piada com a explosão de um foguete. Coincidência?
Certamente houve uma coincidência, porque a capa ficava pronta com quatro ou cinco meses de antecedência. Tinha a redação de super-heróis (o responsável era o Cláudio Marra), a redação Disney e a redação de tudo o que não era Disney (que depois foram fundidas). E havia uma redação separada, o Estúdio de Capas. O chefe era o Izomar Guilherme. O Grego (José Roberto Gregório), que hoje ilustra livros, nas horas vagas pegava um papel e ficava rascunhando ideias de piadas para capas. Às vezes, o Izomar definia que a piada feita, por exemplo, para o Pato Donald, ficaria melhor com o Bolinha. E aí se adaptava.


MARGARIDA... CANCELAMENTOS...
Como surgiu o gibi solo da Margarida?
Fizemos uma pesquisa com leitores, caríssima, que identificavam os personagens pela idade. Os sobrinhos do Pato, por exemplo, tinham, sei lá, 14 anos — na perspectiva da criança —; Tio Patinhas é velho, tem 60; a Margarida parece minha irmã mais velha. Na época, tinha alguma coisa rolando, de movimento feminino. Decidimos pegar a Margarida, dar uma mudada na roupinha e lançar a revista. Acabou vendendo mais que o PATO DONALD. O lançamento foi muito bom. Nos bares da Vila Madalena, dos Jardins, tinha meninas com roupinha da Margarida, camiseta branca estampada e saínha vermelha, distribuindo margaridas, a flor.

E qual o motivo do cancelamento?
As vendas caíram, né? Tem uma régua que, se a vendagem fica abaixo... A revista ESCOTEIROS MIRINS fechou vendendo — nunca me esqueço — 25 mil exemplares [#26, dez/88]. Hoje, isso é muito!

Por que, às vezes, um gibi é anunciado e não sai? Por exemplo, REVISTA DISNEY EM INGLÊS #13, que chegou a ter sua capa mostrada numa revista, e MARGARIDA #258, citada na seção de cartas da última edição do gibi...
Quem decide pelo cancelamento é o comercial, por mais que o editor queira dizer que não. Quem fala quando vai sair, qual o papel, o preço, é o comercial. E é a mesma coisa quando vai fechar. Você pode dizer que tem mídia, tem anúncio... Não adianta.


DISNEY X MAURICIO
Havia disputa entre Disney e Mauricio?
Claro! Era uma disputa interna para ver quem vendia mais. Se um título do Mauricio estava vendendo bem, pensávamos na criação de um título Disney para superá-lo. A ideia da revista do URTIGÃO, por exemplo, veio antes do Mauricio sair da Abril. Já queríamos disputar espaço com o CHICO BENTO.

Alguma coisa dos gibis do Mauricio era produzida na Abril?
Não. A produção do Maurício chegava toda pronta. Mas às vezes entrava um anúncio de última hora e tinha que providenciar uma piadinha de meia página, uma tira, por exemplo. Aí a gente tinha que fazer ali mesmo. Acho que o Maurício nem sabe disso! Mas eu fiz um monte! Nem sei quem desenhava... Uma vez, alguém, na gráfica, fez um pintinho no Cebolinha, que estava tomando banho. E foi impresso assim. O sr. Victor viu, mandou recolher e cobrir com um ponto de guache, revista por revista!


O CASAMENTO DO PATO DONALD E O VETADO DISNEYVERSO
É sabido que O Casamento do Pato Donald sofreu diversas alterações da Disney americana...
Izomar, o chefe do estúdio de capas, deu a ideia: que tal se a gente fizesse uma história do tipo E Se? Aí a Marcia [Bagnolesi, Diretora do Grupo Disney, que depois viria a se casar com Ike Zarmati, Diretor da Abril Jovem] sugeriu que fizéssemos uma série assim com o Pato Donald. Na época eu não estava escrevendo mais, cuidando só da parte administrativa etc., e ela me pediu para escrever o roteiro [foi o último de Júlio, a propósito]. Discutimos os argumentos de cinco ou seis histórias, que não daria para chamar de E Se, então chamaríamos de SÉRIE OURO, que era uma marca já registrada [usada no final dos anos 1970 com especiais de Tio Patinhas, Mickey, Pato Donald e Natal de Ouro], e vamos lançar uma nova linha, paralela, se der certo. Seria um novo universo Disney, um Disneyverso, com o Donald casado com a Margarida, com seis filhos, o Peninha seria prefeito de Patópolis, o Zé Carioca mais rico do que o Tio Patinhas, e o Pateta seria muito inteligente, tipo um Gilberto crescido. Escrevi os primeiros roteiros e a Disney Brasil achou uma ótima ideia, mas precisava mandar para aprovação da Disney matriz. O vice-presidente, Greg Crosby, que foi o idealizador de Pateta Faz História, disse "a ideia é sensacional, mas não dá". Bom, para resumir a história, na época usava-se telex, eu tenho ainda um telex que deve ter uns dois metros, que chega numa certa altura que diz: "se você não fizer o que estou mandando, vamos suspender a licença". Perguntei por que a Itália podia? Na época, eles tinham lançado Casablanca [HQ em preto e branco, inédita no Brasil]. E descobri que eles [nos EUA] não sabiam! E mandaram recolher a edição de TOPOLINO que tinha a história! E acabou que ele mandou fazer [no Casamento do Pato Donald] as linhas onduladas para dizer que era sonho e mandou tirar um monte de coisa. Não ia ser nada do que saiu, enfim.

A Folha de S.Paulo noticiou que o casamento era um engodo. Eles não gostaram nada da história.
Mas ninguém gostou, né? Não era para ter sido nada daquilo. Vendeu muito e tal, mas não ficou bom. O kit de imprensa foi uma caixa de madeira, gravada a fogo "Casamento do Pato Donald", com uma minigarrafa de champanhe Moët & Chandon, dois flutes — tacinhas gravadas, Donald e Margarida —, e o convite do casamento.


ANOS DE OURO DO MICKEY
Por que não saiu uma coleção de Anos de Ouro do Mickey?
Não existiu porque o comercial da editora não gostou do desempenho de vendas da coleção anterior, ANOS DE OURO DO TIO PATINHAS [em 1991] — havia a crise [dos anos 1990]. E já tinha saído, mesmo, a coleção especial dos 60 anos [em 1988, com três volumes em formatinho]. Que, aliás, tinha o Mickey com aquela roupinha nada a ver [no logotipo da série], imposta pela Disney.


BOAS IDEIAS ENGOLIDAS PELAS CRISES ECONÔMICAS
Coisas que não deram lá muito certo naquela época, poderiam fazer mais sucesso hoje, não?
Sim. Os gibis DISNEY EM INGLÊS [1990], ideia que o Mauricio acabou retomando, QUAC! [1992]... muitas ideias ali [nos períodos das crises] que eu acho que em outro momento funcionaria. A MARGARIDA 28-B [o primeiro gibi em inglês, 1987], a propósito, era pra ter sido um brinde.


A PATADA
Qual é a história do jornalzinho da Patada?
Sei que a primeira ideia da PATADA era de vender em banca, como um jornalzinho, avulso mesmo. Depois, pensou-se em distribuir no sinal. Aí, teria-se que levantar patrocínio e tal, e ficaria difícil. Então se fez o teste de encartar [em TIO PATINHAS #189 a 199, entre 1981 e 82]. E distribuiu-se em algumas praças. Já a segunda série [em 1992] seria distribuída pelos jornaleiros, divulgando os lançamentos da época. Cancelamos porque os jornaleiros simplesmente não estavam distribuindo. Era dinheiro gasto à toa.


O VISUAL MODERNINHO DO ZÉ CARIOCA
Por que aquele Zé Carioca de boné e tênis?
A Disney Brasil criou o produto Baby Disney [em meados da década de 1980]. A França começou a fazer quadrinhos com a ideia. E a Disney matriz adorou, porque não tinham nada parecido, até então, para a linha bebê. E a equipe da Disney Brasil se empolgou e decidiu dar novo visual para o Zé Carioca, porque acharam que aquela palheta, guarda-chuva e paletozinho não tinham nada a ver com Brasil, muito menos com Rio de Janeiro. E aí veio o Zé de camiseta, tênis e boné virado, visando o merchandising. Então falamos que passaríamos a fazer as histórias com o novo visual, e eles colocariam as propagandas dos produtos no gibi do Zé. Mas assim como a TV Tupi e seu Clube do Mickey, e o SBT e seu CRUJ, também não houve a contrapartida. E ficamos com o mico na mão, que foi aquele Zé de com aquele boné virado, descaracterizando muito o personagem.


CRUJ: O PROJETO EDITORIAL ABORTADO
O que aconteceu com o CRUJ?
Chegamos a produzir uma espécie de Manual do CRUJ. Ficou prontinho, só não foi para a gráfica. Teria que haver uma contrapartida da TV, que acabou não acontecendo. [A "TV CRUJ" (Comitê Revolucionário Ultra Jovem) era a fictícia emissora pirata dos apresentadores mirins do Disney Club, programa do SBT, supervisionado pela Disney, que estreou em 28/abr/97 e transmitia séries como A Turma do Pateta e Timão e Pumba.]


VENDAS EM SUPERMERCADOS: O SUPERALMANAQUE
Você sabe por que é tão difícil de se encontrar hoje o SUPERALMANAQUE?
Talvez porque tenha sido criado para vender em supermercados. Houve uma experiência em Portugal, e aí decidimos fazer aqui. Contratamos um profissional para abrir um canal de vendas nos supermercados. Após reuniões e análises, concluiu-se que não era viável vender um PATO DONALD no checkout, porque o preço era muito baixo e o mercado exigia um giro enorme para colocar um produto naquele lugar nobre. Então decidimos criar um produto, que custasse mais caro, cujas vendas atingissem o valor necessário. Aí foi que veio o SUPERALMANAQUE [1997].

E aquelas revistas de atividades com quadrinhos, que confusão para os colecionadores, não?
Tinha uma revista que vinha com papéis dentro, em branco, para desenhar. Um dos chefões da Abril ficou admirado: "parabéns, você está conseguindo vender papel em branco!"


A ARTE NAS HQS DISNEY
Sempre nos admiramos com a arte detalhada dos quadrinhos Disney.
Tem uma HQ do Cavazzano que vai sair daqui a alguns meses, com o Mancha Negra, de 2004... O cara é um artista! Não tem um único quadro repetido! [Júlio refere-se a Macchia Nera e il buon vicinato. O título da publicação especial, e mesmo seu lançamento, ainda não foram confirmados pela Editora Abril.]



A ideia de uma edição mensal simultânea de PATO DONALD foi abortada, mas não a tempo de mudar os códigos já impressos nas HQs



Primeira leva de A PATADA: encartadas em TIO PATINHAS de algumas regiões do Brasil



SUPERALMANAQUE: produto mais caro, para ser comercializado nos checkouts dos supermercados. E teve alguns pouquíssimos números com personagens não-Disney

Um comentário:

  1. Não houve a ideia da Disney lançar uma série em animação do Zé Carioca, produzida aqui no Brasil? Seria no mínimo interessante vermos esse tipo de projeto. Além disso, certamente incrementaria a venda dos gibis. Basta lembrar de DuckTales.

    Voltando aos quadrinhos, acredito que um hipotético lançamento da coleção Anos de Ouro do Mickey seria bem sucedido. No ano que vem, a revista Mickey completará 60 anos, e essa seria uma ocasião perfeita. A tal história do Mickey baseado no filme Casablanca, ainda inédita no Brasil, também poderia ser lançada numa edição da revista, dentro dessas comemorações.

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