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29 de mar de 2011

Júlio de Andrade Filho: Entrevista, Parte 1

Apresentação
O Início na Abril e o Encontro com Jorge Kato
Acordo EUA-Brasil para Produção Disney Aqui
Primaggio e o Zorro
Primeiros Roteiros
Manuais Disney, Especiais e Brindes
Diversões Juvenis e Os Inesquecíveis
Rio Gráfica
O Show de Cauby na Bela Cintra
Fotonovela Gay (Involuntária!)



Júlio de Andrade Filho é paulista de Birigui, mas veio pequeno para a capital. A vida inteira escreveu e desenhou. Com 12, 13 anos, enviou uma historinha para avaliação da Disney americana. Recebeu de volta um conselho para que se inscrevesse numa escola de arte. Mas o que lhe marcou mesmo no episódio foi o papel da carta da resposta: com o timbre de Mogli, que nem sequer tinha estreado nos cinemas — um troféu que exibia para os colegas na escola.


Na época, os jovens queriam ser médicos, engenheiros ou advogados. Como seus dois irmãos diplomaram-se nessas duas últimas carreiras, "coube-lhe", por assim dizer, buscar o papel de médico da família. Mas, depois de dois anos completos, abandonou as Ciências Médicas e Biológicas que cursava em Botucatu, voltou para São Paulo e foi trabalhar no Detran, fazendo mapas...


O INÍCIO NA ABRIL
Planeta Gibi: Como você começou na Abril?
Júlio de Andrade Filho: Ao desenhar um mapa que servia para orientar o pessoal a instalar os postes de sinalização, inverti os sinais das placas. Provavelmente foi o maior engarramento até então visto em Diadema! No dia seguinte, estava exonerado! Meu pai então indicou-me uma amiga, investigadora de polícia, que tinha um irmão que trabalhava na Editora Abril. Eu não tinha a mínima ideia de que a Abril produzia Disney aqui. Pois a investigadora era irmã do Igayara [Waldyr Igayara de Souza]. E lá fui eu, procurá-lo na Abril.


PRIMEIRO ENCONTRO COM JORGE KATO
Foi aí que conheceu o Jorge Kato?
Sim. Lá estava eu desempregado, depois de fazer dois anos de Ciências Médicas e Biológicas em Botucatu e depois de ser exonerado do Depto. de Cartografia do Detran. Como eu desenhava desde pequeno e meu sonho era fazer quadrinhos (como tanta gente de minha geração, fui alfabetizado lendo O PATO DONALD), finalmente consegui um contato na Abril: “Vá procurar o Iga”. Lá fui eu com meus trabalhos debaixo do braço. Encostado na porta, vi aquele pessoal debruçado nas pranchetas, vi a qualidade do trabalho deles e pensei “Esquece, nunca terei chances de me igualar a esses caras...”. A secretária da redação veio falar comigo, eu disse que estava procurando o Iga e ela (já instruída em sacanear os novatos, vim a saber muito depois) me disse: “É aquele japonês na salinha do fundo”. Por trás de um biombo com vidros canelados, vi um japonês com os óculos na ponta do nariz, sentado em frente à prancheta mexendo numa arte colorida do Tio Patinhas. Sua mão direita segurava um pincel e o dedo mindinho tinha uma unha enorme que ele usava para raspar o excesso de guache seco que ultrapassara os limites do desenho. Sua mão esquerda segurava um cigarro aceso cuja cinza devia ter uns cinco centímetros e se equilibrava sobre o cinzeiro... sem cair. Fiquei assombrado com aquela imagem e sem coragem de falar, nem de entrar na salinha. Como era aquilo? Como ele conseguia equilibrar a cinza por tanto tempo? Como ele conseguia desenhar e pintar daquele jeito? Finalmente, sem levantar os olhos e falando num tom de voz monocórdico, ele perguntou o que eu queria. Engasguei com o susto dele se dirigir a mim tão de repente, sem se mover, sem deixar a cinza do cigarro cair e sem parar de raspar o excesso de guache da folha de papel... Rasp, rasp! Balbuciei: “S-seu I-Iga... e-eu vim aqui mostrar os m-meus...” Ele me interrompeu, com a mesma voz monocórdica, sem levantar os olhos e sem mexer um músculo: “Eu não sou o Iga. Vá procurar na sala um cara com bigode do Pancho Villa, ele é o Iga”. Pensei comigo que eu estava numa sala de loucos... Um japonês que não era Iga, um mexicano com nome de japonês... Mas fui procurar o Iga (que era o Igayara, claro), que me disse que meus desenhos não tinham nada a ver, mas que eu poderia tentar escrever, e lá fui eu. Saí da sala vermelho de vergonha pelo mico, todo mundo com um sorrisinho na boca do tipo “pegamos mais um, ah ah ah!” mas feliz com a perspectiva de um dia poder realizar meu sonho, o que de fato aconteceu depois.


O ACORDO DISNEY EUA-EDITORA ABRIL PARA PRODUÇÃO DE HQs DISNEY NO BRASIL
Isso foi no início da Escolinha Disney?
Na verdade, a produção Brasil já vinha timidamente, com um crescendo lento e gradual. Quando os Studios começaram a ter dificuldades com desenho (roteiros eles tinham bastante) e a demanda mundial era suprida basicamente por eles — a Itália só produzia histórias longas e a Dinamarca praticamente não fazia nada, nem Holanda ou França — vieram procurar a Abril para ver se poderiam desenhar seus roteiros. Com esse acordo, nossos desenhistas ficaram sobrecarregados e a empresa teve então essa ideia: formar artistas para produzir Disney, basicamente. Daí veio a Escolinha, com a missão de formar desenhistas, arte-finalistas e roteiristas. De início foi dirigida pelo Jorge Kato e depois pelo Primaggio Mantovi. Da turma formada, citando apenas três nomes, saíram o Euclides Miyaura, o Eli Leon e o Acácio Ramos. O pessoal era tudo novo. O Chin [Euclides Miyaura] entrou com uns 16, 17 anos. Mas o Napoleão [Figueiredo], o [Carlos Edgard] Herrero, o Moacir [Rodrigues Soares] já desenhavam... E o Ivan Saidenberg já escrevia.


PRIMAGGIO MANTOVI
Encontramos o Primaggio na última Fest Comix e ele nos falou do clima divertido que tinha a redação...
O Primaggio, além de faroeste — ele produziu bastante Rocky Lane, para a RGE —, adorava Disney em geral e especificamente o Zorro. A escolinha tinha uma sala bem comprida, com uma mesa no centro, cujo tampo inclinava, para colocar ali os desenhos. Cabiam três ou quatro pessoas de cada lado dela. Na hora do almoço, o Primaggio fazia castiçais de papel, subia na mesa e usava as réguas de aço como espadas. Igual ao Zorro, fazíamos grandes duelos, com castiçais cortados e tudo!


AS ASAS DE ÍCARO E A PRIMEIRA HQ BRASILEIRA ESTRELADA POR PENINHA
Fale sobre seu começo como roteirista. Aliás, a primeira história brasileira do Peninha é sua!
Eu demorei para aceitar opiniões. Mas, também, vinha o japonês e só falava [imitando a voz de Jorge Kato] "Não gostei". Quando começaram a me explicar por quais motivos recusavam, passei a entender e fazer melhor. Minha primeira história aprovada foi As Asas de Ícaro, com Mickey e Mancha Negra [publicada uma única vez, em MICKEY #293, mar/77]. Foi a primeira que fiz e que foi comprada. Ficou engavetada por anos, porque era muito comprida e não tinha espaço no MICKEY, por conta da quantidade de material de fora. Os desenhos foram feitos pelo Napoleão Figueiredo. [Júlio foi o roteirista da primeira HQ brasileira de Peninha publicada, Que Peninha!, em O PATO DONALD #1078, jul/72.]


MANUAIS DISNEY
Como surgiu a ideia dos Manuais?
Livraria, na época, praticamente nem existia. O sr. Victor [Civita] teve a iniciativa de levar para as bancas, em forma de fascículos, a Bíblia [no final da década de 1960]. Depois vieram outras coleções — de livros, mesmo, como Os Pensadores, com capa dura, tudo bonitinho. Aí o Cláudio [de Souza] aproveitou que estava aberto esse canal de venda de livros em bancas e deu a ideia de se editar também livros infantis. Os manuais foram trazidos da Itália. Depois dos Escoteiros Mirins, houve só mais um ou dois adaptados [Vovó Donalda e Magirama, de fato]. A continuidade foi toda dada por aqui.


ESPECIAIS CAPA DURA BRANCA
E houve aqueles três belos especiais de capa dura, que venderam não só em bancas...
Foram quatro. O primeiro foi o CINQUENTENÁRIO DISNEY [nov/73]. A capa foi feita pelo Jorge Kato. Ele pegou a foto do Disney e encheu de personagenzinhos em volta. Eu já estava lá, e eu vi ele fazendo, pintando aquilo.


BRINDES E MAIS BRINDES
E aquele monte de brindes e pôsteres que vinham nos gibis nos anos 70?
Nos anos 70, as revistas vendiam muito bem. Os brindes eram presentes para os leitores. A intenção nem era de alavancar vendas. Hoje, se você tira o brinde de uma revista assim, ela não vende. Já a ideia dos concursos era de agitar a revista e fazer uma interação com o leitor. Hoje, para se fazer um concurso que seja vinculado a uma compra, você tem que depositar o valor dos prêmios, pedir autorização da Receita e não obrigar a compra casada. Outra coisa eram as promoções que envolviam o jornaleiro, aquelas em que havia trocas em banca: o sindicato passou a exigir que os jornaleiros fossem pagos por esse trabalho.

Mas, por que aquela cola toda, danificando as capas?
Pro brinde ficar lá! Quando houve a promoção das Moedas Disney, por volta de 1977, a primeira tiragem foi para as bancas com uma cola de pega simples, que não estragava a capa (alguém sugeriu grampear, mas imagine fazer isso em, sei lá, um milhão de revistas). Não sobrou uma moeda!

Caíam, né?
Não! Roubavam todas! Na segunda leva, a cola foi de alta pega, porque o cara ia ficar puxando, tentando, e o jornaleiro ia ver!


DIVERSÕES JUVENIS
Por que a Abril testava tantos títulos em DIVERSÕES JUVENIS?
DIVERSÕES JUVENIS era um selo, assim como a EDIÇÃO EXTRA da Disney. Precisava-se de apenas um título registrado. Antes de se comprometer com um título como, por exemplo, BOLINHA, testava-se dentro do selo DIVERSÕES JUVENIS, um título guarda-chuva.

Porque você tem que pagar pelo título...
Claro! Você tem que pagar e renová-lo. Você registra a marca e a logomarca.


DISNEY ESPECIAL REEDIÇÃO: OS INESQUECÍVEIS
Por que a Abril não reeditou o Disney Especial Os Inesquecíveis?
Eu não estava na Abril nessa época, mas parece que não foi reeditado porque o material original tinha sumido. Para mim (e para muita gente) foi um dos melhores DISNEY ESPECIAL.


NA RGE
Como foi sua experiência na Rio Gráfica?
Isso foi entre 80 e 85. A editora queria voltar a ser forte no mercado, como tinha sido nos anos 1950 e 60. Roberto Irineu [Marinho] disse que tudo ali funcionava, televisão, jornal, menos a Rio Gráfica. Então contrataram o Angelo Rossi (praticamente um co-fundador da Abril), que chamou o Ruy Perotti (que na época estava abaixo do Igayara) e também eu. E fiquei lá uns cinco anos, fazendo projetos especiais, mais com a televisão. E se a Abril Cultural tinha lá seus romances Júlia, Sabrina, alguém deu a ideia de fazer algo semelhante na Rio Gráfica, mas com os textos das novelas da Globo. Foram 8 milhões de exemplares distribuídos como brinde do sabão Omo, e 4 milhões com o Comfort!


CAUBY PEIXOTO FAZ SHOW EXCLUSIVO NA BELA CINTRA. NO MEIO DA RUA!
Maffia pediu para você contar a história do show do Cauby!
O prédio da Divisão Jovem ficava na Rua Bela Cintra, próximo à Rua Costa. Exatamente em frente tinha O Beco, uma boate muito famosa. O Cauby Peixoto estava fazendo uma temporada de shows lá. Quando o pessoal soube que ele estava lá, ensaiando, foram todos para a frente, jogando papel pela janela, gritando "Cauby!"... Na época, seu sucesso era aquela música do Chico Buarque, Bastidores, e eu fiquei lá, cantando da janela. "Cantei! Cantei!" [imitando muito bem o Cauby!] E o cara ficou entusiasmado com toda aquela recepção e acabou fazendo um show no meio da rua, pra gente! O DSV, que tinha um posto ali ao lado, desviou o trânsito da Bela Cintra para a Costa e fechou a rua! Cauby cantou ali uns 40 minutos, no meio da tarde! Quando a televisão ficou sabendo e chegou, já tinha acabado!


GAFE
Tanto tempo na Abril, deve ter cada história...
Essa quem lembrou foi o Marcelo [Alencar]. A Abril publicava muita fotonovela, e numa dessas misturas, de fazer revistas aqui e ali, o trabalho foi parar na nossa redação. Não existia computador nem nada, era tudo colado. Imprimia-se o texto em papel couché e o cara, lá no acetato, ia colando texto por texto no filme, que vinha da Itália. O material foi pra gráfica e estava muito calor. Nisso, o texto descolou de alguns balões. Alguém foi lá e colou tudo de qualquer jeito! Bom... acho que foi a primeira e única fotonovela gay da Abril!

E foi distribuído assim?
Foi! Foi pras bancas, ninguém na editora viu! Tem cena de dois caras conversando, e os balões: "A noite de ontem foi tão maravilhosa", "Ah! Mas eu não quero mais saber de você!". O Marcelo tem a revista!

Por falar nisso, você é colecionador?
Já fui. Eu devia ter 8 anos quando comecei a comprar. Disney, Lulu e Bolinha, Brasinha, Gasparzinho, tudo... Super-heróis... tudo o que saía e que eu tivesse dinheiro pra comprar. Aí sofri um tsunami, alagou minha casa e perdi metade. O que sobrou, doei para a Gibiteca Henfil e outras bibliotecas.


Tirando Escoteiros, Magirama e Vovó Donalda, todos os muitos outros Manuais Disney foram produzidos pela Abril — inclusive o do Tio Patinhas, com sua moeda e "certificado"



Acima e abaixo, pôsteres e mais pôsteres... Todos enormes, como se pode constatar pela comparação com os próprios gibis. O de Kactus Kid, a propósito, leva a assinatura de Canini — mas não foi ele quem desenhou o personagem aqui (segundo revelou em entrevista a Marcelo Alencar, ano passado, na Biblioteca São Paulo)

4 comentários:

  1. Falando em Manuais, eu nunca vi um Manual do Escoteiro (a 1ª edição, de 71) com a lombada intacta. Alguém sabe dizer o porquê?

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  2. Esse aí, da foto, está com a lombada intacta.

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  3. É, eu notei...

    É que quando comecei a colecionar os Manuais, nos anos 80, procurava-os nos sebos e todos (sem exceção) os do Escoteiro-Mirim que encontrava, estavam com a lombada estragada.

    O curioso, é que encontrei quase todos os outros (me falta o da Vovó Donalda) em bom/ótimo estado. Vai entender... ¬¬

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  4. E desde quando gibis ou manuais vendidos em sebos prestam?

    Atualemente este pessoal, pegando carona em alguns desenformados da net cobram absurdos por lixos.

    O cara são burros, cobram um valor altissimo e ainda ricam as capas.

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