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29 de mar de 2011

Júlio de Andrade Filho: Entrevista, Parte 3

O Fim da Produção Nacional de HQs Disney
Editora Atlantis
Trabalhos Atuais
Comportamento de Mercado
Possibilidades Presentes e Futuras


O FIM DA PRODUÇÃO NACIONAL DE HQs DISNEY
Planeta Gibi: Você estava lá quando a Abril fechou as portas dos Estúdios Disney. Como foi?
Júlio de Andrade: O Brasil já vinha de uma década e meia de crise e de recessão. Anos de troca de moeda, de desvalorização da moeda, de crescimento da dívida, de calotes internacionais. Historicamente, quando há recessão, a primeira coisa que as famílias cortam é o gasto com lazer, onde se incluem os quadrinhos. Os pais preferem usar o dinheiro do gibi para comprar um litro de leite. E quando a crise passa, a última coisa a voltar na lista de prioridades de compra é o lazer. E o gibi vem por último na lista dessa lista. Em resumo, o primeiro a ser cortado é o gibi (supérfluo do supérfluo) e o último a ser lembrado... é o gibi. Isso resultou em uma geração, no mínimo, que não sabia o que era ler quadrinhos. Uma geração de crianças que nunca leu e nem viria a se interessar por ler gibi. Nesse período entre cair na recessão e sair dela, essa moçadinha viu surgirem outros interesses e quadrinhos ficou longe das vistas. As revistas vendiam cada vez menos, os encalhes cresciam todos os dias. Para quem não viveu essa época, fica dífícil de entender o que é ter uma inflação mensal de mais de 20% (que é cinco vezes a inflação anual de hoje). Não sabe o que é vc não ter certeza de quanto seu dinheiro vai valer daqui um mês. A conclusão foi que a Abril, para poder ficar de portas abertas e continuar lançando revistas em quadrinhos, foi cortando custos. Em todos os lugares onde podia. Até que precisou cortar na carne, senão ia fechar as portas. E acabou com o estúdio de quadrinhos, que entre todos os custos ainda não cortados era o maior. As vendas das revistas mal e mal se pagavam, era impossível continuar naquele ritmo.


ATLANTIS
Você saiu da Abril...
E fundei a Atlantis!

É mesmo! Publicou Pica-Pau inédito, entre outros... Porque durou tão pouco?
Um sonho de “fazer o que eu queria, do jeito que eu queria” mas que começou no pior dia possível: as primeiras revistas que lançamos saíram em 11 de setembro de 2001. Nossos cartazes de banca e displays e etc. nem foram colados, tudo jogado fora. Puseram cartazes das revistas e dos jornais com as fotos das explosões e nosso prejuízo foi monumental. Durante meses, ninguém mais queria saber de nada que não fosse relacionado ao atentado ao World Trade Center de Nova Iorque. As revistas não venderam, os encalhes foram gigantes, não conseguimos nos recuperar e tudo acabou um ano depois. Mas ficou a lição, Davi só vence Golias nas fábulas. Se você interessar ao Golias, ele te detona e depois compra o que sobrou a preço de banana. Mas se seus restos mortais não interessam a ele, ele passa por cima de você e queima os pastos, porque se você por acaso se recuperar, não terá onde plantar. Ou seja, vai morrer de um jeito ou de outro.


TRABALHOS ATUAIS
Você preparou textos para os CLÁSSICOS DA LITERATURA DISNEY...
Tenho feito trabalhos para a Panini (figurinhas), para a Abril (revistas e livrinhos), Ediouro e outras editoras. E projetos especiais, patrocinados.


HOJE E AMANHÃ
Você, que deve ter visto de tudo no mercado brasileiro de gibis nos últimos 40 anos, ainda se surpreende com algum sucesso (como Mônica Jovem e Luluzinha Teen) ou retomada (como vem ocorrendo com Disney)?
Como eu disse antes, o efeito da prolongada crise no Brasil foi extirpar gerações de consumidores. Daí o motivo de se vender tão poucos quadrinhos hoje, em se considerando a atual pujança do país e a classe consumidora ascendente. Se essa retomada econômica se mantiver sem grandes sobressaltos, uma nova geração de leitores de quadrinhos pode se formar (na minha opinião, está se formando) e o futuro do gibi impresso será mais feliz.

Não acredito, no entanto, que as vendas maciças do passado se repitam. Porque gibi se tornou um nicho. Assim como a venda de discos de vinil. Mas isso não é ruim, ao contrário. Esse nicho pode ser explorado justamente por esse motivo. Um mercado de nicho se presta a experimentações e ousadias que seriam impensáveis num mercado de massa. O mercado de massa é fluido, sem cara, e você pisa em ovos para não correr o risco de ofender algum grupo inserido nessa massa. O nicho já mostra a sua cara, tem personalidade e gostos mais definidos, você erra menos. A única e principal questão é as editoras não pensarem mais em mercado de massa.

O nicho pode acolher bem um produto que traga as tiras do Gottfredson, por exemplo, para falar apenas em Disney. Não seria uma venda para a massa, seria para um nicho de mercado. Isso seria economicamente inviável num negócio voltado para as massas, como há 20 ou 30 anos. Você cancelava revistas com vendas de 60 mil exemplares. Hoje, essa venda seria motivo de queima de fogos.

E não é tanta surpresa assim os recentes lançamentos bem sucedidos no mercado brasileiro. Primeiro, porque o nicho possibilita isso (vender 100 mil exemplares num país com mais de 20 milhões de pessoas letradas, que sabem ler e interpretar um texto, não é nicho? O Brasil tem 74 milhões de pessoas com acesso à internet, incluindo-se aí os alfabetizados). Em outras palavras, o nicho exige e aceita novidades. Esse público de novos leitores aceita material inovador e imaginativo, histórias cheias de surpresas. É menos “conservador” do que a grande massa silenciosa que preferia no passado receber mais do mesmo. Crie um produto original e bem feito, com a cara de seu público, e ele consome.

Ao mesmo tempo, a estabilidade econômica trouxe de volta os “hard-users”, que são os colecionadores ou os antigos leitores. Para esses, que são leitores mais velhos, os quadrinhos remetem às coisas boas de sua infância. Aceitam a novidade com mais ressalvas, sua ânsia por inovação é menor, e prefere produtos mais bem acabados porque hoje pode comprar o que não pôde lá atrás. Para ele você oferece encadernados, ou traz de volta produtos e personagens do passado. E se esse personagem do passado agradar aos novos leitores, ninguém vai reclamar...

As novas tecnologias são outro dado na equação. Os quadrinhos serão relevantes como produtos de consumo enquanto forem de boa qualidade, enquanto contarem uma boa história e que seja bem desenhada. É “simples” assim. E mesmo nessa época de iPads e celulares, tem algo de mágico e divertido em você poder ler seu gibizinho sozinho, na sua velocidade, virar as páginas, ver as cores em detalhes, e depois colocar no bolso. Ou até colecionar...

Por isso vejo a internet como aliada, assim como é para os jornais impressos. Você pode colocar links no impresso com hipertexto, gráficos, making off, videologs, podcasts. Galerias e comentários dos leitores. Foruns, pesquisas, concursos. Você manda o leitor do impresso para a internet numa área interativa e de lá ele volta para o impresso no mês seguinte. Ela também é uma fonte poderosa de divulgação, até para novos produtos e autores serem testados, ou até mesmo comercializados.

Tudo bem, os gibis não vão vender mais tanto quanto vendiam antes, mas isso vai acontecer — ou aconteceu — com tanta coisa... Os DVDs não vendem mais tanto quanto antes, os discos em CD praticamente acabaram, mesmo os programas de TV têm menos audiência hoje. As salas de cinema se esfalfam para atrair público... As pessoas passam muito tempo mandando torpedos, tuitando e navegando na internet que sobra pouco tempo pra essas coisas.

Mas elas sempre vão existir. E coexistir com as outras formas de entretenimento, uma realimentando a outra, sendo comercializadas de formas inimagináveis.

Eu vejo meu tetraneto lendo sua revistinha do PATO DONALD enquanto espera a próxima nave para Marte...



Gibis raros Disney: sonhos de consumo



Encadernados em profusão



Júlio de Andrade Filho: no dia em que ganhou seu neto!


Fotos: Planeta Gibi/José Rivaldo Ribeiro

8 comentários:

  1. Excelente entrevista. Li todinha. Mais uma vez parabéns ao Planeta Gibi pelo excelente trabalho. É sempre bom saber mais sobre a história dos quadrinhos Disney, e sobre uma personalidade tão importante para a nona arte no país.

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  2. Muito legal a entrevista. Assim como naquela série com os anúncios d'O Pato e do Zé, trouxe boas memórias. Será que ele não saberia alguma coisa sobre aquelas segunda e terceira capas em branco do Mickey em março de 1986?

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  3. Simplesmente genial. Obrigado Planeta pelo presente. E vida longa aos quadrinhos Disney no Brasil!!!

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  4. parabens por mais uma excelente reportagem.

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  5. Grande matéria do PlanetaGibi! E parabéns pelas imagens das edições da Patada, dos pôsteres e das revistas (que estão em excelente estado!) Lembrei de outra curiosidade envolvendo o Júlio, ele explicou a numeração das Edições Extra em resposta a uma dúvida do Gilciliano (ele mostrou essa carta na antiga lista do Paulo Ricardo).

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  6. Bacana que tenha gostado, abelrod. Ficamos agradecidos pelas palavras de todos nossos leitores.
    Ah, você pode tirar dúvidas sobre a numeração da Edição Extra no seguinte post:
    http://www.planetagibi.net/2009/11/disney-on-parade-ou-como-um-disney.html
    Abraço.
    E.Rodrigues

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  7. Bonita entrevista, Sr. Edenilson. Não tinha lido ainda.

    [Em outras palavras, o nicho exige e aceita novidades. Esse público de novos leitores aceita material inovador e imaginativo, histórias cheias de surpresas. É menos “conservador” do que a grande massa silenciosa que preferia no passado receber mais do mesmo. Crie um produto original e bem feito, com a cara de seu público, e ele consome.

    Ao mesmo tempo, a estabilidade econômica trouxe de volta os “hard-users”, que são os colecionadores ou os antigos leitores. Para esses, que são leitores mais velhos, os quadrinhos remetem às coisas boas de sua infância. Aceitam a novidade com mais ressalvas, sua ânsia por inovação é menor, e prefere produtos mais bem acabados porque hoje pode comprar o que não pôde lá atrás. Para ele você oferece encadernados, ou traz de volta produtos e personagens do passado. E se esse personagem do passado agradar aos novos leitores, ninguém vai reclamar...]

    É mesmo difícil equilibrar o jogo entre os leitores novos e antigos. Sou leitor antigo mas não sou conservador e penso que o universo dos personagens Disney não pode nunca se fechar em uma mesmice sem fim sob o risco de se tornar desinteressante. Por exemplo, o que Barks fez pelos 'patos' é insuperável, mas nem por isso os outros cartunistas têm que ficar a vida inteira reverenciando a sua obra em seus respectivos quadrinhos.

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  8. Alguns cartunistas vão ousar desenhar os 'patos' de forma mais caricata, como a Silvia Ziche. Alguns roteiristas de hqs vão ousar emprestar o 'Peninha' e o 'Patacôncio' ao universo de 'DuckTales',como recentemente aconteceu. E isso é ótimo!

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