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25 de jan de 2011

E se fosse hoje? Há 25 anos...

Por E. Rodrigues

No dia 28 de janeiro de 1986, o ônibus espacial Challenger explodiu  73 segundos após a decolagem, matando seus sete tripulantes, inclusive a primeira civil a embarcar numa missão espacial. O acidente chocou o mundo e levou a uma paralisação de quase três anos do programa. Menos de três meses depois, chegou às bancas a Edição Extra #167 A Patada, com uma capa que —suspeitamos— jamais sairia hoje em circunstâncias semelhantes. Ainda que por impressionante coincidência (é altamente provável que a ilustração já estivesse pronta quando da fatalidade), a Editora Abril não se arriscaria hoje com o crescente patrulhamento dos politicamente corretos.



Edição Extra ficou sem circular por quase um ano. Em fev/86, o tradicional gibi voltou repaginado: novo letreiro, nova estrutura (mais páginas, lombada quadrada) e proposta diferente: nas capas, os nomes dos personagens deram lugar aos temas.

E logo o segundo número dessa retomada apresentou a ilustração acima (anúncio em Zé Carioca #1777, 21/mai/86), um remake brasileiro de uma capa de Daniel Branca para a dinamarquesa Anders And & Co. #1985-40.

Na ilustração de Branca, Donald está sonhando com fantasmas, numa alusão à HQ clássica de Fallberg e Murry que fechava aquela edição, O Navio Fantasma. É inegável que o artista brasileiro foi muito mais criativo (ainda que resultando na funesta coincidência!).


  
 

Anders And & Co. #1985-40 (Dinamarca, 1985), Disney Magazine #67 (Reino Unido, 1986), Walt Disney's Comics and Stories #604 (EUA, 1996): algumas das reedições do original de Daniel Branca. Já em Pato Donald #1948 (Brasil, 1991), outro remake brasileiro: a piadinha de 1986 (a melhor de todas, vamos admitir!) nunca foi reprisada (imagens Inducks / Outducks)


Como os tempos são definitivamente outros, é bom contextualizar. Semanas após a catástrofe com a Challenger, o jornal O Planeta Diário estava dependurado em todas as bancas com a foto da nave explodindo e a manchete "Wilza Carla explode na terça-feira gorda" (!), juntando à piada de humor negro o fim do carnaval e o estado de saúde então deplorável da atriz (que no papel de Dona Redonda, anos antes, havia explodido no final da novela-fantástica Saramandaia). A doença de Wilza Carla era então assunto recorrente dos programas do tipo Sonia Abrão! Ou seja: não seria um Pato Donald prestes a acordar com a explosão de um foguete que chocaria alguém. Mas, e se fosse hoje?



Veja #909 (5/fev/86)

9 comentários:

  1. Hoje em dia tudo é muito 'fake', inclusive as reações escandalizadas de muita gente. Isto é, se esta situação com a capa do Donald se repetisse nos dias de hoje, se veria uma comoção generalizada mas sem profundidade. Fica-se escandalizado porque isto parece o certo. Não é algo de dentro pra fora, mas de fora pra dentro, como se alguém dissesse para os seus ouvintes: "Olha, fiquem escandalizados com o que eu vou contar porque isto é o que se espera, ok.".

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  2. Pra citar outro exemplo: há pouco tempo encontrei um blog (em inglês) onde o seu dono detonava o Capitão Mobidique porque ele foi criado para ser um baleeiro, embora nunca tenha conseguido caçar nenhuma. Mas será que ele realmente estava indignado de fato com este grande porém controverso personagem ou postou esta (surreal) indignação porque hoje em dia você é praticamente obrigado a odiar quem caça baleias? O Tony Strobl e o Vic Lochman provavelmente não viam o seu personagem baleeiro de araque como um assassino cruel e desalmado...

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  3. Em tempo: mas se eu tiver que odiar quem caça baleia porque o "Grande Irmão" assim deseja, provavelmente também vou ter que odiar quem faz churrasco todo final de semana, certo?

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  4. adorei suas palavras, Chabacano!
    hoje em dia a hipocrisia dominou com essa de politicamente correto...é deprimente...

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  5. Nos dias de hoje, o Planeta Gibi é obrigado a supor que teria sido coincidência.

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  6. (É... dá até medo.)
    E o Lucrécio levou o prêmio de melhor comentário do ano.

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  7. Levando-se em conta o pensamento politicamente correto em vigor atualmente era para eu ser um maníaco homicida já que cresci lendo/assistindo tudo isso que dizem "ser nocivo para as criancinhas". Depois não sabem o porque dessa geração estar tão "colorida".

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  8. esse tal de politicamente correto e uma tremenda hipocrisia mesmo...tudo virou preconceito ou racismo....o mundo anda muito chato mesmo...assim que o proximo onibus com destino a pelo menos 15 anos atras passar subirei a bordo

    ps.: essa capa ta show de bola...me lembra que um dia desses o canal brasil passou um filme do mazaropi chamado "meu filho preto" imagino tb como seria o escandalo hj ou se o titulo teria que ser chamado "meu filho afrodescendente" so pra agradar aos puritanos de plantao que nem ao menos se daria ao luxo de tentar entender a piada

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